Terceiro sinal

Conhecida como cover de Amy Winehouse, a cantora Miranda Kassin revela a promissora faceta de compositora

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h07

Aurora é aquela região do dia em que é cedo demais para quem está despertando, ou muito tarde para quem ainda não foi dormir. É nos contrastes entre o breu da noite, onde construiu sua carreira, e o clarão do Sol que insiste em brilhar que a cantora Miranda Kassin revela um aspecto inédito e promissor: o de compositora. Conhecida primeiramente como cover (não confundir com imitadora) da cantora britânica Amy Winehouse (1983-2011), ela só cantava em inglês e gravou seu primeiro disco em português com o marido e também cantor e ator André Frateschi (Hits do Underground, 2010).

Em Aurora, produção artesanal, independente, concisa e despretensiosa, ela mantém a parceria com ele em metade das oito canções, mesclando personagens da noite e o clima do sítio onde o disco foi gravado, todo ao vivo em estúdio, e onde algumas canções de temática urbana foram compostas. O fenômeno astronômico pronunciado no título do CD, bem como a maçã verde ("que não é a do pecado da Eva"), ácida e refrescante, em três fotos do encarte, são simbólicos do terceiro estágio da carreira de Miranda. "Sempre fui muito noturna, penso e produzo melhor à noite. Mas o amanhecer não me incomoda", diz a cantora, que gosta de ter alimentação saudável para compensar a oxidação precoce dos notívagos.

O isolamento no sítio foi importante para o que Frateschi chama de "mergulho para dentro dela". Nas letras, ele, Miranda e Mauro Motoki (coprodutor e coautor de sete canções) refletem situações de esperança (Terceiro Sinal), conflitos nas relações humanas (Cada Um Com o Seu, Prisão) solidão (Driving Alone, Pobre Menina), de amanhecer (6 Dias Sem Sono, Escarcéu, Terceiro Sinal) e tristeza pela morte recente do pai dela (Driving Alone).

Cantora intensa, influenciada pelas divas da soul music, Miranda mistura diversas referências em Aurora: rock, soul, um pouco de folk, pegadas brasileiras. Para Pensa, que abre o CD pedindo "dá licença de eu chegar", vem com cara de um novo "hit do underground". "Espero que a gente consiga de certa maneira atingir um pouco da massa, para as pessoas saberem que dá pra ter coisa boa, letras mais interessantes do que o tchu tcha tcha tchu tchu."

A propósito, o CD, significativamente, abre com "é seu direito seguir em frente" e encerra com "esquece a escuridão". É o terceiro sinal, a expectativa que no teatro indica que algo vai de desenrolar sob os refletores.

À vontade. Miranda diz que agora consegue brincar mais com o português. A única frase em inglês é a do título de uma das canções mais melancólicas e bonitas: Driving Alone. Essa comunicação mais direta com o público, bem como o título do CD, é para Frateschi revelador "da luz do Sol em cima das coisas todas da vida dela". "O sítio me deixou muito à vontade pra me deixar exposta. Tanto é que tem a foto do baseadinho, que é uma bandeira que quero levantar. Sou super a favor da legalização do cultivo, pra uso próprio", diz. "Então aí estou eu. Esse disco não é um produto que faço."

Frateschi recorre a Bertolt Brecht para exemplificar o momento em que Miranda "se despe do casacão". Uma das coisas que mais irritavam a cantora era quando perguntavam se ela tinha "um trabalho autoral". "Tem tanta música boa pra gente cantar, pra que se limitar? Mas no fim acabei curtindo. Isso foi o mais legal de tudo, porque não tinha grande expectativa com esse disco. Ele me surpreendeu, porque teve pessoas incríveis e toda essa atmosfera que contribuiu para traduzir bastante do que eu sou." O show de lançamento será no próximo sábado, dia 14, no Auditório Ibirapuera.

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