Terças de pura banalidade na Globo

Uma carta de gratidão ao escritor Jorge Amado. Assim o cineasta Sérgio Machado define a minissérie semanal Pastores da Noite, que estréia terça-feira, como parte do pacote de final de ano da Globo, e fica no ar até 17 de dezembro, ocupando o horário de Brava Gente. "Conheci Jorge pessoalmente e devo o fato de estar fazendo cinema à generosidade dele", diz Machado, que divide com Cláudio Paiva e Guel Arraes a adaptação do livro homônimo, lançado pelo escritor em 1966. Em 1993, Machado ainda estava na faculdade quando produziu o curta-metragem Troca de Cabeças, que Jorge viu, gostou e indicou para o diretor Walter Salles. "Salles entrou em contato comigo e iniciou uma parceria que já dura quase dez anos", conta Machado que, em 2001, trabalhou como co-roteirista de Abril Despedaçado, também assinado por Salles, e este ano colhe os bons frutos de Madame Satã, do estreante Karin Ainouz. A idéia de adaptar Pastores surgiu quando o cineasta estava na Ilha de Itaparica, escrevendo o longa Noites de Temporal, que deve rodar em 2003. "Para me preparar para o roteiro, li pela enésima vez todas as obras de Jorge", lembra Machado. "Naquele momento, Pastores me pareceu a mais "filmável", e mesmo assim tivemos de fazer alguns ajustes para adaptá-la ao meio audiovisual". Na versão romance, Pastores é dividido em três histórias independentes - O Casamento do Cabo Martim, Compadre de Ogum e Invasão do Mata Gato- vividas pelos mesmos personagens. "Adaptamos fielmente o enredo e usamos os nomes originais só para os dois primeiros episódios da série", explica Machado. Para os episódios três e quatro da produção, que ganhou Maurício Farias como diretor, o roteirista optou por filmar duas tramas paralelas da terceira história, que foram batizadas como A Nova Paixão de Curió e Um Vestido para Otália. Mesmo em seus romances mais extensos, como Tieta, Jubiabá e Capitães da Areia, Jorge conta histórias com um capricho detalhista de pintor. Para montar seu mosaico baiano, costura pequenos casos que, embora se complementem, são relativamente independentes. "Para ser fiel ao estilo jorjamadiano, nada mais adequado que uma minissérie, com episódios isolados, mas estrelados pelos mesmos personagens", diz Machado. Um pé no cinema - A nova aposta global já nasceu com um pezinho no cinema. Pastores foi rodado com apenas uma câmera, em 16mm - como é de praxe em produções para a tela grande - foi roteirizado por cineastas e estrelado por uma equipe veterana nas telonas. Indícios de que o seriado deve trilhar as pegadas de Auto da Compadecida e Caramuru, minisséries que pularam rapidinho da tevê para o cinema. "A idéia é transformar os episódios em filme já em 2003", revela o diretor Farias. "Fizemos tudo: cenário, iluminação, figurino e maquiagem com critérios que obedecem aos padrões mais exigentes das duas mídias". Privilégios de produção independente, assinada pela carioca Videofilmes, que pôde escapar do padrão global das quatro câmeras para gravar produtos televisivos. Não é de hoje que os Marinho andam afrouxando o cinto para penetras de peso: Casa de Cinema, Videofilmes, JF e O2, as maiores produtoras independentes do País. A primeira parceria veio em 91, mas foi o recente sucesso de Cidade dos Homens, da O2, que convenceu a emissora de que fazer compras no supermercado cinematográfico brasileiro pode ser um bom negócio.

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