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Terapia online

Ser personagem na terapia dos outros é uma responsabilidade muito grande. Você não vira assunto de divã por uma besteirinha qualquer

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2020 | 06h22

“Falei de você na minha terapia”. Eu já ouvi isso algumas vezes na minha vida. E nunca sei como reagir. Ser personagem na terapia dos outros é uma responsabilidade muito grande. Você não vira assunto de divã por uma besteirinha qualquer. Além disso, pessoas não investem dinheiro na própria saúde mental para elogiar os outros: “Sabe o Giba? Nossa, ele é ótimo, que cara legal, equilibrado, sensato...”. 

Não, não, eu não pagaria para falar bem de ninguém. Vocês pagariam? Tá louco! Se eu tiver que elogiar alguém eu ligo para essa pessoa (ou mando um coraçãozinho pelo WhatsApp). Agora, se eu vou falar mal de você, e não quero ser acusado de ser “duas caras”, eu te transformo em material freudiano.

Ou seja, se me citou durante uma sessão é porque alguma coisa errada eu fiz. Ou a pessoa acha que eu fiz. (Palmas para a minha maturidade).

Minha cabeça fica a mil quando sei que apareci nesse tipo de conversa. Devo ser pintado como um monstro insensível, alguém que foge de compromissos e que afasta as pessoas e que tem medo de se relacionar e que vive arrumando desculpas para não se envolver e que não percebe que logo será um cinquentão e que não gosta de dormir abraçadinho e...

Gente, eu não durmo abraçadinho porque meu braço adormece muito rápido. Deve ser algum problema sério de circulação. Tá explicado? 

Claro, como vocês já devem ter notado, eu mesmo nunca fiz terapia. Acho que não conta a vez que sai com uma psicóloga que conheci no Tinder. Desconfio que o encontro foi ruim porque ela deve ter ouvido muitas coisas a meu respeito no consultório:

–  Quer subir para tomar um drinque?

– Eu não vou subir no seu apartamento...

– Mas...

– Você é do tipo que não liga no dia seguinte.

– Mas quem te contou? 

– Ninguém...

– Já sei, tem a ver com o código de ética profissional, aquele lance de confidencialidade entre médico e paciente.

– ...

– Mas quem te contou?

Mas, atendendo a centenas de pedidos, resolvi fazer terapia também. Por conta da covid-19 e do isolamento social, procurei uma consulta online.

Como essa primeira sessão era grátis, prometi para mim mesmo não falar mal de ninguém (guardando essa possibilidade para quando estiver pagando). 

Marquei um horário e entrei no link que me foi enviado. A conexão não estava muito boa. Quando a chamada de vídeo começou, a imagem estava travada. Demorou uns cinco minutos para a coisa se estabilizar. Quando pude visualizar, percebi que a terapeuta estava de máscara. 

Aquilo me deu gatilho. Sei lá, defendo o uso de máscara e todos os cuidados contra o coronavírus. Mas acho que não existe nenhum risco de transmissão por videoconferência. Constrangido, perguntei se a doutora gostaria que eu usasse máscara também. 

Ela riu. E disse que tinha acabado de voltar da padaria: “Tô tão acostumada com a máscara que esqueci de tirar”. 

Então, ela tirou a máscara e BOOM! 

Me apaixonei pela terapeuta.

Eu sabia que isso poderia acontecer. Sempre tive essa fantasia. O problema é que apaixonado eu começaria a mentir nas sessões, ia querer me mostrar uma pessoa melhor do que de fato eu sou. Ia ser um desperdício de tempo.

Fui salvo pelo gongo. Não, pelo Amaro, meu cachorro. Por algum motivo ele começou a latir. Alucinado com algum barulho da rua, subiu no meu colo e desvirtuou minha sessão. 

Quando ele se acalmou, foi a vez da chamada de vídeo voltar a travar. Um pico de energia também derrubou a chamada por alguns minutos. Tentamos por mais algum tempo, mas eu brochei (não, não, essa palavra está errada aqui. Desculpem. O que eu quis dizer é que perdi o impulso, a coragem).

Prometi entrar em contato para marcar um outro dia. Afinal, eu ainda tenho uma sessão grátis. 

Mas talvez espere o fim da pandemia. Talvez espere a vacina. Vacina contra o coronavírus. Ou contra a minha falta de maturidade.

É mesmo difícil ligar no dia seguinte.

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