Terapia Intensiva

Dirigida por Selton Mello, nova aposta do GNT adapta para o Brasil série de sucesso mundial

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h08

Em hebraico, BeTipul; em inglês, In Treatment; em espanhol, En Terapia; em romeno, În Derivâ; em holandês, In Therapie; em sérvio, Na Terapiji. Em português, uma das mais criativas séries de TV dos últimos anos, cuja versão brasileira estreia em 1.º de outubro, às 22h30, no GNT, chama-se Sessão de Terapia, mas poderia ser chamada de "a arte de levar para a TV a complexidade de uma sessão de psicanálise e transformá-la em série vencedora de dezenas de prêmios em mais de 30 países". A façanha inicial foi do israelense Hagai Levi, que criou BeTipul em 2005, "após passar a vida tentando descobrir o que de fato queria fazer".

Levi, que é diretor, produtor e roteirista, também trabalhou na versão americana da série, In Treatment, estrelada por Gabriel Byrne, produzida e exibida pela HBO e vencedora de vários prêmios Emmy e Globo de Ouro. "Costumo ir a todos os países onde a série é produzida, mas não consegui ir ao Brasil, porque estou filmando um documentário justamente sobre as diferentes versões. Em breve, vou visitar seu País", contou Levi ao Estado, em conversa por telefone. "Mas li o material que os brasileiros me mandaram. Sei que a equipe é ótima, que o diretor é também ator e vai dar certo. Esta é uma ideia e um formato muito simples que até hoje me surpreende."

Por formato simples entenda-se uma série diária de 45 capítulos de 28 minutos cada um. A cada dia, um paciente é atendido. Na sexta, o terapeuta visita sua terapeuta. Em questão de produção, de fato parece simples realizar Sessão de Terapia. Desenvolve-se em uma única locação, praticamente um cenário. Em questão de roteiro, a simplicidade engana. "Não acredito em nada que pareça muito simples. É preciso ter cuidado, pois o roteiro, ainda que partindo de um original, tinha de ser muito crível, bem desenvolvido. Tudo tinha de ter muita verdade", comenta Roberto d'Avila, produtor da série, que teve a ideia de comprar os direitos de adaptação e propor o projeto para o GNT.

Para garantir essa verdade, o trabalho dos atores também era crucial. Nada melhor que um diretor ator para entender a sutileza necessária. "Trabalhar o tom da atuação, da voz, da empostação foi um dos maiores desafios. Se fosse muito over, poderia parecer um monólogo e não uma conversa. Foi um dos trabalhos mais 'simples' e mais complexos que já fiz", comenta Selton Mello, que, depois de mil páginas de roteiro e dois meses de filmagem, tem milhagem digna de vários longas-metragens. "É um desafio para o qual trouxe a experiência de uma vida. Do teatro, da TV, do cinema, que amo e em que já fui ator e diretor."

Uma das grandes dificuldade - e um dos prazeres - de Selton foi justamente selecionar o elenco. Com olhar apurado, Mello escalou uma trupe eclética, que varia da estreante Bianca Muller à veterana Selma Egrei. Bianca vive Nina, uma ginasta de 15 anos; é a paciente mais jovem de Theo, o terapeuta, vivido pelo experiente Zécarlos Machado. Selma é Dora, a supervisora e orientadora de Theo. A sessão de Nina é na quarta. Antes, na segunda, é dia de Julia (Maria Fernanda Cândido) passar e desestabilizar o consultório. "Ela tem medo de relacionar, mas acaba se apaixonando pelo terapeuta. É um personagem incrível. Diferente de tudo que já fiz", conta a atriz. Julia, aliás, é de certa forma rival de Clarice (Maria Luísa Mendonça), mulher de Theo, que reclama da ausência do marido na relação. Outro casal em crise é Ana e João. Eles dividem o divã às quintas, com os dilemas em torno de uma gravidez que é desejada por ele (André Frateschi) e rejeitada por ela (Mariana Lima). Para completar, terça-feira é dia de Breno (Sergio Guizé), policial que matou uma criança por acidente.

Breno é um dos personagens preferidos de Levi. "Cada país tem o desafio de adaptar os seus dilemas locais . Mas a natureza humana, seus desejos e conflitos são comuns em todo o mundo. O personagem do piloto, que no Brasil virou o policial, é o que mais muda conforme a realidade social de cada lugar. Ele agrega a complexidade do contexto", diz o autor. "Foi o trabalho mais difícil que já fiz. Não só pela complexidade do personagem, e do que ele enfrenta, mas também pelo pouco tempo de preparação. Foi um processo intenso. Toda a ação é contida, baseada no poder da palavra, nos gestos mínimos", conta Guizé.

A propósito, Breno é um atirador de elite que, em uma ação na favela de Heliópolis, ao atirar em um criminoso, acerta também uma criança e tem de lidar com a culpa. "O Breno é a melhor versão desse personagem, que na série israelense é um soldado que atirou uma bomba em uma escola. Isso é mérito do Guizé, que deu a ele complexidade que outros não deram", diz d'Avila, que cita a originalidade como fator de sucesso de público. "Quando a Daniela Mignani (diretora do GNT) contou que queria investir mais em dramaturgia, pensei em Sessão de Terapia. É diferente de tudo."

Para Hagai, a grande diferença não está no formato, mas no efeito. "Mais que entretenimento, a série levanta a importância da psicanálise. E mostrar para muitos que não sabem o que é terapia, a realidade do tratamento. Se no Brasil conseguirmos levantar essas questões, estarei satisfeito."

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