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Terapia de choque

A mistura bombástica de rock, androginia, poesia, diversão, sensualidade e protesto político fez dos Secos & Molhados um fenômeno incomparável

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

A capa do disco - com homens maquiados e cabeças servidas na mesa de jantar - o som seco do rock, a poesia contundente, os recados políticos. Tudo isso, aliado à performance provocativa do andrógino e esguio Ney Matogrosso e seus parceiros de banda, fez da estreia dos Secos & Molhados o grande escândalo (para os conservadores) e a grande alegria (para crianças, gays, jovens e progressistas em geral) de 1973. Só nos primeiros dois meses o álbum - que chega amanhã às bancas dentro da coleção Grande Discoteca Brasileira do Estadão - vendeu 300 mil cópias, número multiplicado por três no decorrer do ano. Era uma marca que até então só Roberto Carlos tinha atingido.

Apesar da produção creditada a Moracy do Val, quem de fato pilotou o disco Secos & Molhados foi João Ricardo, que assina a direção musical, colocou seu violão como condutor e é autor de quase todas as canções (exceto a melodia de Rosa de Hiroshima, feita por Gerson Conrad). A história se encarregou de transformá-lo num dos maiores clássicos do pop-rock brasileiro. "Até os erros acabaram virando qualidade", diz João. "Aquela crueza dos arranjos na época, no auge do rock progressivo, era quase uma ofensa para os músicos", lembra. "Briguei com todo mundo para manter aquela sonoridade."

O segundo e último álbum da formação clássica, já sem o baterista Marcelo Frias, não teve o mesmo impacto. Parte do fenômeno do primeiro advém do choque transgressor (e atualizado) da velha rebeldia do rock, em meio à repressão militar - incluindo manifestações de sensualidade. No mundo dos jovens caretas de hoje, como Ney já observou, falta esse tipo de ousadia. "Éramos assumidos no que havia de fundamental. Era a primeira oportunidade grande, real, de se discutir homossexualismo, não podia virar galhofa", diz João.

Como ninguém é de ferro, havia nesse manifesto libertário um lado lúdico, divertido. Um de seus maiores êxitos era a brincadeira rebolativa misturando rock"n"roll básico com dança portuguesa (O Vira), na interpretação cortante de um homem com rosto pintado, que tinha "voz de mulher" e atuava combinando uma minúscula sunga com plumas, brilhos e miçangas, bem ao estilo Dzi Croquettes.

De outro lado, havia a canções de protesto escancarado como Sangue Latino e Primavera nos Dentes, música de João Ricardo sobre versos de seu pai, João Apolinário. Não se sabe se tais letras passaram despercebidas pela censura, ou se a aclamação popular abafou qualquer tentativa de represália. O disco também popularizou outros poemas musicados, como Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes, e Rondó do Capitão, de Manuel Bandeira.

Desde pequeno João Ricardo, ainda em Portugal, se viu cercado de poesia e trouxe isso para seu primeiro projeto musical. "Como todo garoto eu queria ter uma banda de rock, mas queria ter a qualidade dos Beatles." Tempos depois ele começou a musicar poetas. "Na época quanto mais diferente você fosse, melhor."

"O rock brasileiro não tem nada a ver com o que certos grupos fazem hoje, imitando os americanos. Tem a ver com o que a gente fazia, tem a ver com os Novos Baianos. Nem Mutantes faziam rock brasileiro, mas rock inglês e americano", provoca. Outro músico "diferente" surgido na época foi Zé Rodrix (pioneiro do rock rural), que tocou quase todos os teclados, além de piano e ocarinas no disco dos Secos & Molhados. "Ninguém fala disso, mas sua participação foi fundamental."

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