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Teocratas saem do armário

Quem torceu em público para o "preço do seguro saúde explodir” nos Estados Unidos? E quem declarou que “a era de tolerância deliberada ou cumplicidade vergonhosa com assédio sexual" deve acabar? Uma declaração foi feita numa cúpula de evangélicos em Washington. A outra, numa reunião de emergência em Los Angeles.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 03h00

Acertou quem adivinhou que a torcida para tirar o acesso à assistência médica de milhões de americanos e contribuir para mortes prematuras teve lugar entre os que dizem defender deus e ser “pró-vida.” Quem desconfiou que a segunda afirmação veio dos libertinos ateus de Hollywood, ao expulsarem o alegado estuprador e agressor serial Harvey Weinstein, também acertou.

O que os dois encontros têm em comum? Sim, a hipocrisia. No caso da Academia de Hollywood, ao menos a declaração formal admite que houve tolerância e cumplicidade. No caso da cúpula de Values Voters, esta invenção eleitoral americana que o MBL quer estimular e cooptar em Pindorama, introspecção é carta fora do baralho. Por isso, o fato de que o mensageiro do apocalipse do seguro saúde, Steve Bannon, é um três vezes divorciado, com passado de violência doméstica e a aparência do sujeito que se recusa a sair na hora de fechar o bar, não é causa para ironia.

Primeiro, é necessário fazer uma distinção. Os evangélicos que ajudaram a definir a eleição presidencial americana de 2016 são os brancos – 81% deles votaram no atual presidente. Analistas  de demografia eleitoral veem esta aliança como o último suspiro de uma população fadada, os censos mostram, a se tornar minoria. Mas, como temos oportunidade diária de confirmar, o triunfo desta minoria afeta a maioria com uma abrangência que é difícil acompanhar, em todas as áreas em que o Executivo e o Legislativo controlados pelos republicanos tocam. Já abro minha caixa de correio angustiada, esperando a carta da seguradora explicando, em marquetês, como foi inevitável aumentar minha mensalidade exorbitante.

Na semana passada, comentei aqui, antes de as acusações contra Harvey Weinstein serem estendidas a estupro, sobre a hipocrisia de quem demonstrava horror ou surpresa. Afinal, no período em que Hollywood era dominada por supostos tementes a deus, atrizes aspirantes eram passadas de mão em mão no açougue dos escritórios executivos. Marilyn Monroe e Judy Garland são dois exemplos de mulheres que não superaram o trauma de abusos. Shirley Temple lembrou em suas memórias que, aos 11 anos, foi submetida a uma sessão privada com o pênis exposto de Arthur Freed, um dos celebrados produtores de O Mágico de Oz. O ano era 1941, aquela era americana que, os evangélicos brancos esperam, o novo presidente vai ressuscitar.

Se os demagogos de plantão se atropelaram para associar o suíno Weinstein a Obama e Hillary, candidatos que ele apoiou e ajudou a financiar, como um milionário identificado com causas democratas, não vemos, entre eles, qualquer intenção de tratar o assédio sexual como uma violação, não uma questão partidária. A Fox News, de Rupert Murdoch, pediu o fechamento da produtora e distribuidora Weinstein Company, esquecendo de mencionar que a própria rede está sob investigação da divisão estadual de direitos humanos, após vários casos de demissões por assédio e pagamento de indenizações vultuosas. A prática de eleger o bandido favorito não é monopólio da nossa política.

Por que, perguntarão os leitores, é importante apontar para o fosso entre o que tantos evangélicos trumpanaros dizem defender e o que estão preparados para tolerar e ignorar? Basta olhar para a conveniência deste casamento que atrai imitadores. A cúpula dos Values Voters reuniu os eleitores que se organizaram há uma década para, entre outras brigas, combater o casamento gay, o aborto e a separação entre igreja e Estado. O menos religioso e mais pessoalmente devasso homem a se eleger presidente em meio século nos EUA é o seu herói.  Endossado com entusiasmo, depois de ser ouvido numa gravação se gabando de agressão sexual, ele é defendido com argumentos messiânicos que servem de carimbo para qualquer política econômica cozinhada por ateus da concentração de renda e do darwinismo social. É uma fórmula milagrosa.

Não há mais como chamar esta gente de conservadores.  Os conservadores com Q.I. acima de dois dígitos e algum compasso moral nem tentam mais acomodar grupos de evangélicos brancos. Eles agem como uma milícia tribal, consumida pelo ressentimento de seu declínio demográfico. Nenhuma afronta à Constituição lhes perturba porque se sentem seguros para sair do armário como teocratas que são. Quem teve a sensação de déjà vu ao ler a reportagem de Bruno Abbud na revista piauí, sobre o que se conversava no grupo de WhatsApp do MBL? O que a nova direita classifica de modernizar a economia depende de cortejar evangélicos para garantir a classe C, as conversas deixam claro. A pressão para fechar a exposição Queermuseu nada teve a ver com o bem-estar infantil e sim, como disseram candidamente na troca de mensagens, com o reforço do tripé eleitoral com o “agro.” Depois de ser cortejados com entusiasmo por Lula e Dilma, os evangélicos descobrem que têm novo pretendente. E, assim como os teocratas americanos, devem cobrar caro por estas bodas.

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