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Tensão e sensibilidade de Elisa Bracher

Equilíbrio é o principal elemento na obra da escultora Elisa Bracher, que expõe obras em chumbo na Galeria Millan

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2011 | 08h00

Ele pode ser um material tóxico, mau condutor de eletricidade, causador de várias doenças e usado como munição de armas, mas também protege o corpo contra raios X e vira arte nas mãos de pintores como o alemão Anselm Kiefer e da escultora brasileira Elisa Bracher, que inaugurou ontem uma exposição na Galeria Millan. Nela, antes de tudo, o chumbo adquire ares de metal nobre. Usado há 7 mil anos, ele é cada vez mais presente num mundo dependente de blindagem contra a radiação atômica. Nos trabalhos de Kiefer e Elisa Bracher, no entanto, o mais antigo dos metais abdica do lado utilitário e encontra sua moderna vocação formal. Prova disso são as duas esculturas e a grande instalação que a artista mostra em sua individual Ponto Final.

Não é a primeira vez que o chumbo entra na composição do trabalho da escultora. Ele vem sendo usado como contrapeso nas gulliverianas esculturas em toras de madeira da artista, instaladas em parques públicos como o Ibirapuera e Villa-Lobos. As esculturas de grandes dimensões da mostra são igualmente impressionantes. Logo à entrada da galeria, uma estrutura de ferro de quase 5 metros de altura sustenta três esferas de chumbo maciço, cada uma pesando mais de 400 quilos, apoiadas em cabos de aços entrelaçados. Ao entrar na sala principal, o visitante vê, ainda surpreso, como essas pesadas esferas, apoiadas também em cabos de aço, parecem leves e soltas no ar, fazendo-o esquecer que passa sob uma tonelada do metal associado a Saturno pelos alquimistas.

Saturno. O aspecto saturnino do chumbo é apenas superficial nas esculturas de Elisa Bracher, que não tinha exatamente Kiefer em mente quando resolveu usar o material. Kiefer, como se sabe, usou chumbo em telas que agregavam materiais diversos, variando de espigas de trigo a roupas, tudo para sintetizar a - pesada - história alemã desde o 3.º Reich. A recorrência metafórica não se aplica aos trabalhos da brasileira. O material pesado não serve a nenhuma alegoria nessas esculturas e na instalação. O chumbo é o que é, sem disfarces. Quando mandou o molde das esferas para a fundição, ela recebeu de volta esferas polidas, pois o manipulador concluiu por conta própria que o chumbo deveria ser maquiado. Perdia-se, enfim, o aspecto brutalista do material, novamente submetido ao processo para recuperar seu aspecto original.

"Gosto de usar os meios de produção de massa para fazer uma peça artística", diz Elisa, diante da grande instalação que ocupa a sala maior da galeria Millan e sugere uma analogia com o funâmbulo que arrisca sua vida no arame. A diferença é que a ameaçadora bola de chumbo, afastando o espectador, atrai paradoxalmente seu olhar e o paralisa diante do tensionamento dos cabos de aço pelas pesadas esferas, que parecem pequenos planetas orbitando no sistema batizado pelos cientistas de Kepler-11.

"Parecem, de fato, planetas, e lembro que estava fixada no Mikrokosmos de Bartók quando comecei a trabalhar essas esferas", conta Elisa. Mikrokosmos é uma série de 153 peças para piano de caráter progressivo, escritas entre 1926 e 1939 pelo compositor húngaro Béla Bartók (1881-1945)- e empregadas no ensino didático. Outra referência - desta vez visual - que acompanhou a artista no processo de elaboração foi uma série de esculturas de Louise Bourgeois (1911-2010) exposta há dois anos na Dia Art Foundation, em Nova York. Não era a faceta surrealista de Bourgeois que a encantava ou o comentário feminista das pesadas peças presas por fios de aço que pendiam do teto, mas a forma de ocupação espacial do sótão da Dia Art. Para Bourgeois, o espaço não existia. Ele seria apenas uma "metáfora para a estrutura de nossa existência".

A diferença entre Bourgeois e Bracher é a mesma que Argan observou entre os móbiles de Calder (1898-1976) e as formas surrealistas de Miró (1893-1983). Havia, segundo o crítico italiano, uma morfologia arbórea em Calder que conduzia ao advento de um espaço acústico nessa dimensão espacial. Miró seria a flora do inconsciente. Calder tornaria visível um ritmo que, ao não ser dinâmico nem cinético, seria, segundo Argan, o oposto do ritmo da vida moderna. A instalação de Bracher na sala principal é exatamente isso: a suspensão desse ritmo frenético das metrópoles para a criação de um espaço reflexivo, silencioso, cósmico, em que tudo está em movimento mas parece estático.

Cárcere. O conteúdo semântico das esferas de Bracher não sugere nem o uso funcional nem simbólico da forma esférica. Tem, antes, segundo a artista, uma relação com as gravuras de Goya (que ficou surdo por causa do chumbo contido nos pigmentos) - e não com os projetos arquitetônicos do neoclássico Boullée (1728-1799), pioneiro no uso da esfera bem antes da geodésica de Buckminster Fuller (1895-1983). "Inicialmente pensei em fazer lençóis de chumbo, um varal de chumbo em homenagem a Goya, mas desisti da ideia."

Goya ficou para uma próxima vez, mas o veneziano Piranesi (1720-1778) surge como outra influência assumida na construção da escultura instalada na entrada da galeria. A estrutura que sustenta as esferas de chumbo na obra remete aos "carceri d’invenzione" do italiano, série de prisões imaginárias retratadas em 16 gravuras que marcariam a estética labiríntica e surrealista de Escher com suas estruturas subterrâneas e escadas que não levam a lugar nenhum.

Toda a obra de Bracher gira em torno da busca do equilíbrio, o que justifica a presença ostensiva do peso tanto nas toras como nas esferas de chumbo. Com elas, a artista mostra que não se trata tanto de uma questão de razão, mas de tensão e sensibilidade.

Elisa Bracher - Galeria Millan (R. Fradique Coutinho 1360, Vila Madalena). De 2ª a 6ª, 10 h às 19 h; sáb., 11 h às 17 h. Até 2 de abril. Entrada gratuita.

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