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'Tenho de me beliscar', diz Marion Cotillard

Atriz, que mostra dois filmes em Cannes, também conta que já quis abandonar o cinema

LUIZ CARLOS MERTEN - ENVIADO ESPECIAL , O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h09

CANNES - Houve um momento, pouco antes da estreia de Piaf - Hino ao Amor, em que Marion Cotillard chegou a pensar em desistir da carreira. Estava desanimada - nada de bom acontecia. Comunicou a seu agente que estava parando. Ele fez a mesma pergunta que o repórter do Estado - mas você vai fazer o quê? Marion queria entrar para o Greenpeace, dedicar-se à causa do meio ambiente. "Sou guerreira em defesa da natureza", define-se.

E aí veio o Festival de Berlim, La Môme - título original - estourou, Marion ganhou o Globo de Ouro, o Oscar de melhor atriz. Até agora, Marion às vezes não acredita que tudo isso tenha ocorrido com ela. "Foi tudo além das minhas expectativas mais delirantes", conta ela.

Ela está em Cannes com dois filmes - o do marido, Guillaume Canet, já passou fora de concurso, Blood Ties, Laços de Sangue. O Imigrante, de James Gray, ficou para o último dia, e há uma tradição de que sejam os filmes vencedores da Palma de Ouro.

Marion ri das observação do repórter. Palma de Ouro? "James é muito talentoso", avalia. Veste alguma coisa mais casual de Dior, sua maison preferida. Marion tem brilhado no tapete vermelho.

Como Catherine Deneuve no passado - e a bela da tarde segue imperial -, Marion é hoje a grande estrela internacional da França. Faz uma mãe, disposta a tudo para defender os filhos, em Laços de Sangue. E diz - "A maternidade mudou a minha vida".

Marion Cotillard chega para a entrevista usando um conjunto Dior. Elegantérrima - pantalona e uma jaqueta que logo tira, ficando de tomara que caia. Ela é hoje uma estrela internacional, a maior da França, mas a imprensa francesa não gosta dela. Uma jornalista de Paris chegou a advertir o repórter - "Você vai ver, ela é rasa".

Marion não só não é simplória como é bela e inteligente e, além disso, com seu papel ativo em causas ecológicas se tornou porta-voz do Greenpeace. E é uma raridade, uma estrela que olha o entrevistador no olho, que se emociona e toca as pessoas ao redor. Essa 'humanidade' talvez seja o que afasta os franceses de Marion. Eles talvez preferissem que ela fosse fria como a ícone Catherine Deneuve, que, na terça-feira, prestigiou, imperial como sempre, a apresentação do filme de sua filha Chiara Mastroianni em Un Certain Regard - Les Salauds, dirigido por Claire Denis.

Blood Ties é o remake norte-americano de um filme que seu marido, Guillaume Canet, já havia feito, como ator, na Franca. Você ajudou na decisão dele de escolher este filme para sua estreia como diretor nos EUA?

Em geral, trocamos ideias, mas não chegamos a interferir na carreira um do outro. Guillaume declinou convites que eu achava muito interessantes para dirigir na América. Um ou dois me pareciam muito bons, mas não cheguei a me surpreender quando ele anunciou que ia verter Liens de Sang para os EUA, nos anos 1970. Guillaume queria um assunto que pudesse dominar e é louco pelo cinema policial e de gângsteres dos anos 1970. Eu gosto de alguns filmes de (Francis Ford) Coppola e (Martin) Scorsese, mas ele possui um conhecimento muito mais aprofundado que eu do cinema do período. Guillaume é do tipo que sabe de cor os diálogos de filmes antigos. Tomada sua decisão, ele me propôs um papel. Poderia ter dito não, mas ele estava tão entusiasmado. Aceitei.

Você poderia realmente ter dito não a seu marido?

Sim - mas não. Ele conseguiria me persuadir. E a personagem que faço, Mônica, já era para mim a melhor da versão francesa, embora houve algumas coisas que eu pedi a Guillaume que mudasse.

O que, exatamente?

O filme é sobre dois irmãos que seguem trajetórias diferentes. Um está saindo da cadeia, o outro é policial. O segundo tenta reaproximar o irmão da ex-mulher e dos filhos, mas ele volta para o crime. O que eu pedi, e Guillaume concordou, é que a espessura dramática de Mônica fosse mais intensa. Tudo o que ela faz é em defesa dos filhos.

Falei ontem com Chiara Mastroianni, que também interpreta uma mãe no novo filme de Claire Denis (Les Salauds) e ela me disse que ficaria paralisada se se projetasse na figura dessa mãe. Você, pelo contrário, parece viajar na emoção. Se não fosse mãe, interpretaria a personagem de forma diferente?

Provavelmente, sim. Assim como La Môme mudou minha carreira, o fato de ser mãe mudou toda a minha perspectiva de vida. Sou muito ligada à família, aos amigos e se alguém me forçasse a dar a vida por meus pais, eu creio que daria, mas ia pensar um pouco, nem que fosse por um segundo. Como mãe, eu não pensaria nada. Posso parecer melodramática, a mãe total, a mãe sofredora, mas é um sentimento genuíno. O fato de ser mãe me aproxima muito mais do ponto de vista da personagem Mônica.

A personagem é de ascendência italiana, fala com sotaque. Foi uma preparação difícil?

Não falo uma palavra de italiano, se quer saber. Bem, sou capaz de dizer pizza e peperone, mas quando Rob Marshall pediu que introduzisse palavras italianas no diálogo de Nine (musical de Rob Marshall, 2009) fui eu que o convenci a desistir. No caso de Blood Ties, o sotaque era uma ferramenta importante para a definição do personagem. Trabalhei com coach, e confesso que fiquei feliz quando um jornalista italiano me deu ontem nota 10 pelo sotaque. Foi o meu Oscar particular. (Risos)

Por falar em Oscar, o que o prêmio de atriz de Hollywood mudou em sua vida? Ou na carreira?

Mudou muita coisa. Pouco antes de La Môme, eu cheguei a avisar meu agente que estava desistindo da carreira. Trabalhava duro já há alguns anos, mas as coisas não aconteciam. E aí veio o convite de Olivier (Dahan) para fazer Edith Piaf. Eu estava no meu limite. Chorava por qualquer coisa, tinha crises de raiva. Quando ele me pediu que expressasse tudo isso na tela, não vou dizer que tenha sido fácil, porque foi extenuante, mas eu só tinha de liberar sentimentos que carregava comigo. E aí foi aquele sucesso. As coisas, que estavam travadas, começaram a ocorrer rapidamente. Tanta coisa mudou na minha vida que, às vezes, tenho de me beliscar para perceber que tudo isso é real. Nem nos meus sonhos mais delirantes poderia imaginar tudo isso que ocorre comigo.

Além do filme de Guillaume (Canet) fora de concurso, você tem outro de James Gray na competição, The Immigrant. E Gray é corroteirista de Blood Ties. O filme dele foi uma consequência de Blood Ties?

Pode-se dizer que sim, mas não do jeito que você pensa. Conheci James quando Guillaume e ele vertiam os diálogos de Blood Ties para o inglês. Saímos para jantar e eu soube que James comentou com a mulher dele que me achara muito interessante. Ela perguntou qual a surpresa - afinal, eu era atriz, havia recebido o Oscar. James começou a pensar em mim como possibilidade para essa trama inspirada na história de seus pais, e de sua mãe, como imigrante. Terminei filmando The Immigrant antes, mas as circunstâncias fazem com que os dois filmes estejam estreando juntos. O papel de Blood Ties é pequeno, em The Immigrant estou o tempo todo em cena, ou quase. É uma personagem muito intensa, muito real. E o diálogo de James é vivo. Tenho de expressar muita coisa, como em La Môme, embora seja diferente.

Seu próximo filme será com os irmãos Coen...

... E eu estou muito excitada por isso. Gosto demais do cinema deles e das possibilidades que abrem para os atores. Eles nunca têm muito dinheiro, e o que fazem é se preparar. Trabalham com os atores - leituras, improvisações. Tudo é feito antes. Esse processo já começa na semana que vem, no dia 30.

Quer dizer que o ano que vem você estará em Cannes de novo?

Pode ser (E ela sorri de forma encantadora).

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