Tempos em que árias disputavam olimpíada

O Barão de Coubertin, autor da famosa frase "o importante não é vencer, mas competir" e idealizador da Olimpíada da era moderna, cuja primeira edição ocorreu em Atenas, em 1896, dizia que foi motivado "pelo desejo de reunir um casal que durante muito tempo viveu divorciado - músculos e mente".

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h09

Em 1891 ele já sugerira, sem sucesso, uma competição de literatura entre os atletas. Quinze anos depois, em 1906, propôs e conseguiu a inclusão das artes e da literatura na Olimpíada, como acontecia na Grécia antiga. Elas participaram de sete edições, entre 1912 em Estocolmo e 1948 em Londres. Nesta última, aliás, se distribuíram medalhas nas categorias arquitetura, escultura, pintura, música e literatura.

As artes hoje já não estão na grade das competições oficiais da Olimpíada. Mas a música e os esportes já andaram de mãos dadas 300 anos atrás. O recém-lançado álbum duplo L'Olimpiade recupera esta parceria. Afinal, o tema dos Jogos dominou a ópera no século 18. Foi o que constatou a trupe da Ópera Barroca de Veneza, liderada por Andrea Marconi, que queria montar, em 2006, a ópera A Olimpíada, de Galuppi, compositor italiano do século 18. As pesquisas indicaram que dezenas de compositores musicaram o drama do poeta italiano Pietro Metastasio: entre a estreia da ópera de Galuppi, em 1733, e o fim daquele século, mais de 50 compositores musicaram o drama que conta a história de um competidor dos Jogos que comete uma fraude, pedindo a um amigo que concorra com seu nome, pois em caso de vitória ele ganharia o prêmio máximo, a filha do rei. Mas a filha do rei é sua irmã gêmea, o que só se descobre no clímax da ação.

O segundo passo do grupo é daqueles truques que, benfeitos, funcionam maravilhosamente. Eles agiram como músicos do século 18. Ou seja, como não havia a noção de obra de arte com relação à música, era comum fazerem corte e costura com pedaços de suas obras anteriores, e também com obras de terceiros, para "novas" criações. São, ao todo, duas horas de música da melhor qualidade, reunindo 16 compositores europeus do século 18 com habilidades para dois tipos de árias muito populares no barroco: as árias da capo; e as árias coloratura, cheias de piruetas virtuosísticas na voz que provocam impacto entre o público. Alguns são conhecidos, como Vivaldi, Cimarosa, Pergolesi, Hasse, Paisiello e Cherubini. Mas há outros praticamente desconhecidos, como Caldara, Jomelli, Sarti, Traetta, Myslivecek e Gassmann.

Entre as árias que mais me impressionaram está a virtuosística Quel destrier Che Allalbergo e Vicino, de Galuppi. É quando Licida, personificado por Franziska Gottwald, nosso herói, quer correr nos Jogos Olímpicos, mas não tem forma física e propõe a fraude a Megacle. Franziska também emociona em Mentre Dormi, de Antonio Vivaldi, ao cantar para o cansado amigo Megacle; e depois, quando a fraude é descoberta, em Gemo in un Ponto e Fremo, de Galuppi. E, claro, o dueto mais famoso do século 18, entre Megacle e Aristea, assinado por Florian Leopold Gassmann, que compôs sua Olimpíada em 1764. O destaque final vai para a meio-soprano Romna Basso ("Megale") na belíssima Se Cerca se Dice Lamico Dove, de Cherubini./ J.M.C.

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