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Tempos de eleição

Na atual conjuntura, a questão vital é como anular um ‘centro’. E evitar o risco de uma competição

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 03h00

Em termos eleitorais, tempos de mudanças inversas ou reversas – ou de rejeição a mudança; tempos nos quais reiteramos nomes e inventamos partidos, mas jamais pensamos em mudar os costumes, os jeitinhos, os assassinatos de caráter, as malandragens, o familismo, as informações fantasiosas e secretas; enfim, em tudo que a ideia de “fake” contém. Tempos eleitorais são tempos de vale-tudo no qual surge a nossa real ideologia política: ganhar a qualquer custo ou preço porque na (ou em) “política vale tudo!”.

A novidade é que essa ausência de ética, que essa brutal vontade de poder chega às pessoas diariamente, de modo pessoal e íntimo por meio de um “smartphone”. Sem os controles da gramática pública, a mídia pública (tida como “grande mídia”) perde relevância. Estamos jogando no lixo a legitimidade jornalística que também é embrulhada num universo descentralizado, no qual só há dois partidos, e o ideal seria assassinar o “centro”, o espaço que permitiria evitar uma vergonhosa repetição. 

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Em tempos eleitorais, surgem “pré-candidatos” e postulantes. Na atual conjuntura, repito, a questão vital é como anular um “centro”. E evitar o risco de uma competição capaz de vacinar contra o populismo e ter um postulante disposto a meter o dedo na ferida. 

Aliás, hoje em dia, os jornais com suas folhas boas para amanhã embrulhar o peixe e, quem sabe, limpar o traseiro de algum eleitor desvalido, estão perdendo para as redes digitais dos iPhone, iMac e iPod. Esses “eus” que tecem a selva de ignorância, misturando má-fé, incoerência ideológica e preguiça. As “fake news” são a síntese da amoralidade covarde da carta anônima com a irresponsabilidade do trote telefônico. É o resultado de um anonimato doentio que impede responsabilizar seus autores.

A narrativa honesta e os argumentos mais complexos – aquilo produz “civilização” – sem o professor credenciado e o jornal, a revista e sobretudo o livro que lhe dava concretude ou “peso”, como se dizia, passaram a ser uma superfície espelhada na qual um jumento envia ao seu par mentiras transformadas em “informação de cocheira” dadas por um amigo palaciano. Ou manda um microenredo político revelador do grande mistério brasileiro, segundo o qual o xerife era o bandido.

Num jornal tal enredo mereceria mais substância. Mas nas microtelas que se abrem sem você querer, vale tudo, pois a vida que ali aparece é tão pequena quanto uma piada. Nela, não sobra dúvida, pois há somente o certo ou o errado: Satanás ou o bom Deus. A polaridade esconde uma vergonhosa repetição. Suprimindo escolhas, ela liquida tanto a liberdade quanto o novo. 

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