Temporada em favela inspira coreógrafo alemão

Junho de 2001. Mais uma noite de tiroteio na favela do Andaraí, na zona norte do Rio. Todos os moradores, pela prática do convívio com a violência, correm para dentro de suas casas. Menos um, que nervosamente se veste com meia-calça e sobe na laje, onde passa algumas horas a se fotografar e filmar tendo como fundo a mistura de luzes do amanhecer carioca.Negócio arriscado não só pelas implicações em discutir a própria bissexualidade e as questões políticas envolvidas, mas porque numa favela carioca qualquer vacilo, como se diz, acaba em tiro e um alemão franzino, usando meia-calça no telhado cai nessa categoria. O coreógrafo Thomas Plischke repetiu a cena no telhado durante os três meses em que morou no ano passado, com mais dois bailarinos, na favela carioca. Plischke era convidado do Goethe Institut no projeto Cultura na Favela e além de aulas de dança contemporânea criou para a Companhia Étnica de Dança, nascida naquela comunidade, o espetáculo (não) pode falar, que no segundo semestre vai excursionar pela Europa.Mas das noites na casa de favela surgiu outro projeto, levado a cabo em uma dezena de locações diferentes pelo mundo: o filme Selfgender, que será exibido hoje no Kunstencentrum Vooruit em Gent, na Bélgica, em que Plischke leva adiante a discussão que vem fazendo nos palcos dos maiores festivais de artes cênicas do mundo sobre gênero, política, sexualidade e performance.No filme, às imagens feitas na favela do Andaraí se juntam algumas no luxuoso Hotel Glória. "Desde 2000 eu me fotografo de meia-calça, no amanhecer, numa pequena contribuição a Rosemarie Trockel, que tem um trabalho chamado ´viver é tricotar meias´, no qual ela se fotografava em poses clássicas da Playboy numa meia-calça tricotada. As locações foram meu apartamento, a Academia Real de Artes de Estocolmo, os chuveiros do Beursshouwburg, na Alemanha, um hotel em Cingapura e um banheiro para deficientes físicos num trem de alta velocidade. Tenho 300 fotos, que farão parte do banco de dados do site do projeto, com trechos do vídeo e textos", diz Thomas Plischke, de 30 anos, formado na mais disputada das escolas de dança contemporânea do mundo, a P.A.R.T.S., mantida pelo grupo belga Rosas, em Bruxelas.O trabalho coreográfico que fez de Plischke nome obrigatório em qualquer análise da atual dança européia já esteve no Brasil em 2000 no Panorama Rioarte, no Rio, e na Mostra Internacional de Dança do Sesc, em São Paulo, quando mostrou Affects, que discutia noções de autoria e tempo. De volta a Frankfurt depois da temporada carioca no ano passado, Plischke se associou à teórica de teatro político Katrin Dauffert e ao dramaturgo Pikko Husemann para criar a Frankfurter Kueche, comunidade nos moldes da Factory de Andy Warhol."Queremos explorar todas as possibilidades de performance, discussão, criação e pesquisa, juntando todos os tipos de pessoas", explica Thomas Plischke, que se formou em filosofia antes de se dedicar à dança. SelfgenderAutoeroticselfsisyphus e já foi exibido em alguns festivais universitários europeus e chamou a atenção de teóricos de performance importantes, como Günter Heeg e Nikolaus-Müller Schöll. "A reação dos homens é sempre forte, muitos vêm falar conosco agressivos no fim da sessão."A reação feminina é ainda mais agressiva e muitas mulheres saem antes do final", conta o coreógrafo. Uma exibição do filme nos festivais de dança brasileiros do segundo semestre é quase certa. "Estou ansioso pela reação no Brasil, porque as noções de sexualidade e gênero mudam muito", nota. Thomas Plischke gosta de testar os limites. Seu novo trabalho mistura Beatles a Derrida e, depois de 4 minutos em silêncio numa homenagem a John Cage e uma sinfonia de taças de cristal, a platéia, é claro, começa a sair. Os artistas então cantam uma canção até que o último membro da platéia saia. Em Viena esta última parte demorou três horas.Não satisfeito, Plischke e Katrin Dauffert fizeram com grande sucesso no dia 27, no Monsourtum, em Frankfurt, a sexta edição do projeto Postpolitical. Durante seis horas de performance, o público podia entrar e sair, discutir com os artistas ou apenas observar. As reações são variadas e as críticas, mesmo quando não acatam as idéias de Plischke, destacam a importância de sua atuação para a renovação da dança européia. Os mesmos críticos volta e meia associam Plischke a uma geração de criadores que inclui os franceses Jerome Bel, Xavier Le Roy e Boris Charmatz, a americana radicada na Bélgica Meg Stuart e o alemão Thomas Lehmen, para citar alguns. "Normalmente a palavra usada sobre todos nós é desconstrução", acrescenta.

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