Temporada de shows e áreas vip

 

Lucio Ribeiro, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

 

O ex-beatle Paul McCartney tocou no Brasil três vezes: duas em São Paulo e uma em Porto Alegre. Mas o ex-parceiro de John Lennon não foi o único. Cerca de 130 shows internacionais passaram por palcos brasileiros, num ano ímpar de concertos solo, festivais, showcases e banda-gringa-em-festinha-fechada. Em estádios, em parques de diversão, em casas de espetáculos, em tenda de skate, em galeria de arte e numa fazenda de Itu. Shows de vários tamanhos, para as muitas vertentes do rock e para todas as suas intersecções estilísticas. Começou em janeiro com Metallica e terminou no último sábado, já na madrugada de domingo, com a banda electroindie dinamarquesa WhoMadeWho fazendo excelente show em palquinho improvisado em um clube paulistano essencialmente de música eletrônica. No meio disso tudo teve de Beyoncé a Guns n'Roses; de Queens of the Stone Age e Pixies pela primeira vez em São Paulo ao pianista erudito Brad Mehdau tocando Radiohead e Nirvana na "clássica" Sala São Paulo. Que ano!

Junto com a quantidade enorme das bandas internacionais no Brasil se "popularizaram" também, no país, as antipáticas áreas vip em frente ao palco. Não qualquer cercadinho seguro e confortável para as "pessoas muito importantes", geralmente convidadas para o evento ou com condições de pagar bem mais pelo lugar privilegiado. E sim as áreas vip (também chamada de premium ou prime) tomando toda a frente do show, separando a banda de seu verdadeiro público fã comum. O Rage Against the Machine incitou seus fãs a invadirem o espaço nobre, no show do SWU. O lotado Anhembi tinha um buraco entre a banda Green Day e sua massa adoradora, porque os vips não lotaram o espaço especial e o verdadeiro show do público começava a metros de distância do palco. Isso esfria e desanima até show da Ivete Sangalo. O Via Funchal, casa de shows fechada (veja bem), também armou sua área vip mais cara para a frente do palco e fez o vocalista do Belle & Sebastian atravessá-la, subir na cerca da "fronteira de classes" divisória e cantar para seus "fãs comuns". Para o Black Eyed Peas, foi criada a área vip da área vip. Tinha o palco, os muito vips na frente, depois a região dos vips não muito vips mas vips, para só no meio de campo do Morumbi começar a "pista normal". Para o show do Iron Maiden em Recife, em abril de 2011, está sendo vendida a área Front Stage, um setor vip em frente ao palco com serviço de buffet. Enquanto a banda estiver tocando hinos do heavy metal como Run to the Hills ou The Number of the Beast, o público privilegiado da área vai poder estar saboreando uma coxinha. Não combina!

A banda canadense lançou seu terceiro álbum, The Suburbs, em agosto, e com ele subiu de divisão no rock, deixando de ser apenas adorada por indies e atingindo um nível "Radiohead/Coldplay" de popularidade. O belíssimo The Suburbs, um dos melhores discos do ano em qualquer lista de fim de ano de revistas especializadas (não só), quando lançado, entrou em primeiro lugar na parada inglesa, na Billboard americana e em alguns número 1 de outros países. No mês de lançamento do disco, o Arcade Fire lotou duas datas no gigantesco Madison Square Garden, em Nova York, justificando seu novo status de banda grande. O segundo dos shows de NY foi transmitido ao vivo pela internet, em tempo real, via YouTube, atingindo uma audiência de milhões. A banda depois passou o ano tocando com destaque em festivais gigantes tipo Lollapalooza (EUA) e Reading Festival (Inglaterra).

A pequena The Drums, de Nova York, entrou janeiro como a banda nova mais badalada do planeta, a "next big thing", o grupo para não tirar o olho. Bonitos, bem vestidos, estilosos até para dançar, a BBC falou deles até cansar. O Morrissey os adotou como o grupo predileto deles no ano. Não era para menos: uma canção deles, I Need Fun in My Life, seria o que os Smiths estariam fazendo hoje se estivessem na ativa. Era um dos shows mais recomendados do megafestival de bandas novas South by Southwest, de Austin, Texas. O já hino indie Let's Go Surfing tocou tanto que parece música de 2005. Depois veio o genial single Best Friend. Depois veio o genial single Me and the Moon. Perderam o guitarrista e não se abalaram (muito). Tocaram para 70 mil pessoas em Londres, na carona do show do Kings of Leon e não se abalaram (muito). Lançaram o primeiro álbum no meio do ano. Como todo mundo já tinha baixado loucamente, nem foi muito novidade. Gravaram uma música com o grande Edwyn Collins. Para uma banda que pouca gente conhecia no final de 2009, tocaram em quase todos os lugares do mundo. Menos na América do Sul. E não foi por falta de convite. Para uma banda que pouca gente conhecia no fim de 2009, tem música em propaganda brasileira de carro que passa em horário nobre.

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