Temporada de caça

Vitórias e bipolaridades do Abril pro Rock - o festival que, em duas noites, tenta abraçar um mundo que pouca gente vê

JULIO MARIA / RECIFE , O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h08

Algo de anormal acontece quando um camisa preta desaba. Feitos para aguentar horas seguidas de impacto sem proteção, esses bravos rebeldes se divertem na pista jogando seus corpos contra os corpos dos outros, socando o ar e enlouquecendo com os gritos de guerra lançados por seus ídolos. Às 2 h da manhã de domingo, porém, os camisas pretas começaram a desabar nas laterais da pista do imponente Chevrolet Hall, no Recife.

A edição número 21 do Abril Pro Rock, festival do produtor Paulo André que começou nos anos 90 querendo mostrar ao mundo o que é que Pernambuco tinha por baixo de suas sombrinhas de frevo, merece um olhar atento. Subsidiado pela empresa Petrobrás, consegue colocar até 10 bandas de rock em dois palcos de uma casa de shows luxuosa, cobrando pela entrada R$ 60 (ou R$ 40 mais um quilo de alimento). Para o fã, uma vantajosa relação custo-benefício. Para o festival, uma viabilidade financeira que preserva seus produtores de esfacelarem suas credibilidades apelando aos blockbusters de carreiras menos respeitáveis. "Sabemos claramente qual é o nosso tamanho. Esse é o nosso tamanho", dizia Paulo André durante a apresentação da banda de metal gaúcha Krisium.

O tamanho do Abril Pro Rock de sexta foi o inverso da noite de sábado. Os espaços em branco do Chevrolet Hall, o Credicard Hall dos pernambucanos, expôs as atrações a um certo constrangimento. As 3.500 pessoas ali, o público registrado, não pareciam tomar nem um terço da casa. Paulo André tinha seu vilão: "A chuva. Muita gente desistiu de vir por causa dela". Instantes antes do começo dos shows, um temporal deixou Recife com jeito de São Paulo. Um pouco mais de conversa e Paulo fala de outra baixa que pode ter colaborado para o contingente reduzido. "Iríamos ter o Rodrigo Amarante (Los Hermanos), mas ele não pôde participar por problemas pessoais, ele está se casando. Quem sabe não se torna nosso primeiro nome confirmado de 2014?"

Sexta e sábado abrigaram dois festivais diferentes. A sexta que pouca gente viu foi involuntariamente dividida em novatos (Tagore, Babi Jaques e os Sicilianos, Silva e a sensação local Volver), uma atração internacional de peso (Television) e três já veteranos (Marcelo Jeneci, Siba e Móveis Coloniais de Acaju).

Aqui mora uma perigosa bipolaridade de conceitos. Foi prazeroso descobrir uma banda com a luz do Tagore, de uma força tropicalista eletrizante que tem como responsável direto o vocalista Tagore Suassuna. E um deleite ouvir o rock de cabaré da garota Babi Jaques e seu grupo cheio de tiradas cênicas - tiradas até demais, como a do guitarrista que atende o telefone no palco para conversar com o produtor Paulo André. Depois veio Silva, a revelação do Espírito Santo que começa sendo chamado de Guilherme Arantes resfriado mas que vira o jogo e ganha de goleada criando baladas eletrônicas com habilidade para fazê-las durar por semanas em quem as ouve. Mas aí vem o egoísta do Television e faz daquelas coisas que tendem a apagar tudo o que o cérebro registrou antes de ele aparecer. A banda de Tom Verlaine é um arrastão. Inventou o rock que não é bem rock, o solo que não é solo e a canção que não chega a ser canção. Sua atitude cool o distancia do punk que se fazia quando ele chegou, em 1974, para consolidar um som pré-anos 80 que ninguém nunca conseguiu definir. Durante sua apresentação no Abril, alguém jogou objetos no palco por três vezes e enfureceu o guitarrista Jimmy Rip, que identificou o rapaz e o chamou para a briga. O jovem não apareceu e ele ameaçou descer. Verlaine, ignorando tudo, passou a solar mais alto. Rip passou a solar também. A banda acompanhou a subida e Rip não se conteve. Sorriu com um prazer de garoto e o público percebeu. Aplaudiu até cansar. O fim da sexta, com Jeneci, Siba e Móveis Coloniais, não estaria imune aos poderes monopolizantes do Television. As três atrações finais já não combinavam com a proposta reveladora do início da noite.

O sábado foi uma overdose de metal. Dez bandas se revezaram, com destaques para o death metal do Krisium, o thrash alemão do Sodom e o punk rock do Dead Kennedys. Qualquer uma delas já seria suficiente para uma noite de prazer e cabeçadas ao vento. Todas juntas, uma após a outra, por sete horas seguidas, derruba até um camisa preta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.