Tempo tempo tempo

Tempo tempo tempo

Em dia de aniversário a gente pode quase tudo: pode ganhar café na cama, sair mais cedo do trabalho, pegar a primeira fatia do bolo. Ou pode até pensar como aquela personagem da peça Três Mulheres Altas, de Edward Albee, e dizer que nesta idade estamos entre a imaturidade e a decadência, num platô de cima do qual podemos ver tudo - e quem viu Nathalia Timberg rugindo essa fala não esquece jamais. Mas a gente também pode acreditar nessas classificações da psicologia e matutar sobre a meia-idade, um termo que sugere outros igualmente melancólicos: meia-boca, meia-bomba, meia-sola... Uma vez escutei no rádio um desses sujeitos que dão conselhos para a vida profissional desaconselhando um ouvinte de 40 anos a mudar de carreira, na linha "agora é tarde, amigo" (ou então, "a vida começa aos 40: começa a terminar"). E isso numa época em que as sociedades envelhecem e a expectativa de vida não para de subir.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

A sensação de idade tem a ver com o modo como se usa o tempo. A pergunta que mais me fazem, por sinal, é como arranjo tanto tempo para ler, escrever, etc. Menosprezam o fato de que esse é meu trabalho, ou seja, que as oito horas que passam trabalhando são, para mim, oito horas que posso passar lendo e escrevendo. É claro que sinto falta de tempo: queria jogar mais futebol, morar um período fora, retomar minhas aulas de alemão e piano, escrever um romance. Mais falta ainda sinto do que não pude ser: em outra encarnação, não tenho dúvida, tentaria ser cientista (biólogo, neurologista, físico?). Mas não acredito em encarnação e acho que tenho tempo para realizar boa parte daquelas vontades. Se posso repetir o chavão do "tudo passa tão rápido", digo com mais convicção que, até aqui, eu soube aproveitar bastante bem. Corri atrás das coisas; não fiquei esperando que me dessem ou me deixassem.

Para quem ama a mulher que tem e o trabalho que faz - duas coisas raras, ainda mais simultâneas -, a vida nunca parece que está sendo desperdiçada. Os erros do passado pesam, como errar de faculdade e casar muito cedo, mas o problema não é errar, é demorar para reconhecê-los; foi por isso que dei a volta por cima em ambos. Aqui vem um ponto importante. Essas duas decisões, ou melhor, essas duas "correções de rota" aconteceram contra a opinião da maioria dos que me cercam - inclusive os amigos mais queridos, com as intenções mais altruístas. Ouvir a voz própria, sabendo arcar com as consequências, é fundamental nesses assuntos. A cultura latina, a meu ver, põe ênfase excessiva nos laços pessoais; por medo de magoar os outros, todos terminam muito mais magoados do que se tivessem uma conversa franca, educada, mas sem concessões. As questões existem em si mesmas, não são apenas projeções de nossos temperamentos e interesses, e a objetividade possível deve ser buscada.

Atribuo a isso o fato de que me dizem indiferente demais ao que os outros pensam de mim. Não é verdade. Sei meus defeitos, mas sei também que as críticas nem sempre chegam com as palavras adequadas - ser petulante não é ser arrogante, e gostar de mulheres é o contrário de gostar de enganá-las - ou com boa-fé. Quase 20 anos de prática me ensinaram a identificar quando uma resenha negativa faz questão, por exemplo, de identificar se você é jornalista, paulista, jovem... E sei que é minha cabeça que deito no travesseiro, não a dos outros. A propósito, muitas pessoas de poder na cultura e na política brasileira - produtos e produtores da mentalidade oligárquica que ainda nos governa - têm o péssimo costume de imitar a rainha de Alice e pedir as cabeças dos que as contestam. Conseguiram aqui e ali, mas sobrevivi a todos.

Qualquer um que trabalhe em comunicação, por supuesto, quer ser bem entendido. Mas não existe comunicação sem ruído. Quando comecei, me diziam que os leitores não querem saber de muito senso crítico e de assuntos supostamente sérios. A maioria só quer saber de celebridades e diversões, e mesmo os que se interessam pelos temas leem com desatenção e palpitam com furor. (Até familiares me perguntam por que não escrevo um "best-seller", como se fosse uma fórmula e, mais importante, como se eu quisesse.) Os que não me conhecem, portanto, imaginam que sou rabugento, que não dou gargalhada vendo Didi na TV, que não sei chutar bola, etc. Estão acostumados com "intelectuais" que não sabem dirigir, só escutam música erudita e olham os outros de cima para baixo. Ou com jornalistas que não falam mal da imprensa, paulistas que não falam mal de São Paulo (afora trânsito e violência) e jovens que acham que o mundo começou quando nasceram.

Me divirto muito com tudo isso e, principalmente, me sinto satisfeito quando me dizem que leram livros como Dois Irmãos, de Milton Hatoum, Desonra, de Coetzee, Reparação, de Ian McEwan, ou que "redescobriram" Machado porque instigados pelo que comentei. Ou que gostam justamente da mistureba de assuntos que faço aqui. Todo convite que recebi foi porque leram o que escrevi, não por indicação ou "amizade". E estou certo de que, apesar do que sempre ouço, ou do que leio na revista Brasileiros, muitos percebem que sou diferente de ídolos de juventude como Paulo Francis e H.L. Mencken. Gosto de futebol, MPB e Obama, gosto de pesquisar e não exagerar, sou ateu sem culpa, não sou preconceituoso nem engraçado. Mas aprendi com Francis e Mencken a tratar a cultura como prazer e a dizer o que penso sem medo de patrulha.

Essa curiosidade sem ansiedade, essa inquietude sem amargura, é um dos prazeres da maturidade, para os quais, talvez porque também raros, não tinham me alertado - e felizmente, pois a vantagem de não ser muito otimista é que as boas notícias são mais bem desfrutadas... Quando completou 80 anos, Bernard Shaw começou uma palestra assim: "Quando eu era mais novo, diziam que quando chegasse aos 80 iria ver. Bem, cheguei aos 80 e não vejo nada." O discurso de autoridade pela idade é ridículo. Do alto do platô vemos muita coisa, não tudo, e vemos também que as rugas e as dobras se acumulam. Mas o que se vive é o presente, e presente melhor o tempo não nos dá. O tempo não voa nem se arrasta: é o indivíduo que escolhe seguir em pé. Agora, ao café e ao bolo.

Cadernos do cinema. O filme Os Vivos e os Mortos, de John Huston, baseado no conto The Dead, de James Joyce (será que Os Mortos era um título muito simples ou muito mórbido para os tradutores brasileiros?), trata do assunto acima. Depois de 23 anos, finalmente o DVD sai aqui, graças à ótima Coleção Cultclassic. Quando Gabriel (Donal McCann) vê sua mulher, Gretta (Anjelica Huston), se perder na memória ao ouvir uma velha canção irlandesa, e depois ela conta que estava pensando num jovem amor, ele se dá conta de como não conhecemos nem a pessoa mais íntima e, entre ciumento e melancólico, medita sobre si próprio, sobre um tipo de paixão que nunca sentiu, em sua sóbria meia-idade.

John Huston, que sabia o que era adaptar uma grande obra, colocou esses sentimentos no rosto de Gabriel no momento em que vê Gretta no alto da escada. No conto de Joyce, que o escreveu aos 25 anos (maledetto!), ele primeiro se alegra com a emoção dela e só depois sente o baque. Para resolver a mudança, Huston mudou um diálogo da festa para o coche, onde o casal está sozinho. E assim deslizamos com os personagens até o monólogo final de Gabriel, cuja linha mais inesquecível eu traduziria assim: "Sua própria identidade estava se apagando num impalpável mundo cinza: o próprio mundo no qual um dia os mortos haviam trabalhado e vivido estava se dissolvendo e definhando."

Por que não me ufano. Está bonita a exposição de Andy Warhol na Estação Pinacoteca. Ele tinha talento, sem dúvida, e isso fica claro em séries de retratos como as de Jackie Kennedy (toda em "blues", como realçando sua elegância em meio ao luto) e Marilyn Monroe (cosmética em versões variadas, sugerindo que aquele rosto tão conhecido não é um rosto que conhecemos). Há uma frase de Warhol se queixando de como a mídia "programava os sentimentos" no dia da morte de John Kennedy, e é sobre isso que suas serigrafias pretendiam falar. Mas muitos outros artistas da segunda metade do século trataram desse tema com crítica mais clara (Rauschenberg, por exemplo) ou foram melhores pintores (De Kooning, Francis Bacon) - e Warhol, para os milhares de visitantes, faz parte desse mesmo mundo de famosos e marqueteiros entre os quais vivia.

Do lado de fora, sob a marquise do futuro centro de dança à frente da Sala São Paulo, uma multidão de mendigos ocupava a calçada. Essa imagem se repete cada vez mais, mas as pessoas preferem não ver.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.