Tempo presente e vazio

'Era Meu Esse Rosto', de Marcia Tiburi, põe em cena um 'estrangeiro' na vida

AMILTON PINHEIRO É JORNALISTA, CRÍTICO DE LITERATURA, DE CINEMA, FICCIONISTA, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

AMILTON PINHEIRO

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a definição do dicionário Aurélio, a palavra "vão" tem o significado de "vazio, oco, sem valor, fútil, fantástico, incrível, ilusório, enganador, ilusivo, inútil". Todos esses adjetivos servem para definir o mundo do protagonista do romance Era Meu Esse Rosto, da gaúcha Marcia Tiburi, lançado recentemente - criança, no tempo passado com a família fantasmagórica num lugar chamado V., no Sul do Brasil, e adulto, nos dias atuais, vividos numa cidade da Itália também denominada V., para a qual ele viaja atrás dos "restos" que lhe permitam compor a história de seu avô paterno. E a sua também.

Marcia Tiburi, doutora em filosofia, conhecida por sua atividade como professora universitária e por ter participado, durante um período, do programa Saia Justa, do GNT, não costuma ter seu nome relacionado à ficção, apesar de já haver escrito três romances - Magnólia, A Mulher de Costa e O Manto -, publicados entre 2005 e 2009, de valor literário inquestionável. Nessas obras, que formam a Trilogia Íntima, as tramas, protagonizadas sempre por mulheres, são construídas por meio de experimentalismos linguísticos incomuns em grande parte da literatura brasileira de hoje, fortemente descritiva do que se apreende do "real" e tributária de um vocabulário corriqueiro.

Neste quarto romance ela deixa de lado tais recursos testados nos livros anteriores, mas não abre mão da densidade poética e do rigor narrativo, com suas extraordinárias ressonâncias que derivam da melhor tradição da literatura feita por aqui no século passado.

A história da família da criança revela um passado orquestrado pela morte, com suas tonalidades opacas e frias, mas como se tudo não passasse de miragem, num mundo em decomposição. Nada é descrito com precisão e os tempos e os espaços se entrecruzam, embaralhando acontecimentos, como se a vida daquelas pessoas estivesse sendo regida por um roteiro de páginas embaralhadas ou representada por um quadro impressionista, com suas figuras apenas esboçadas.

O narrador, tanto no passado como no presente, se sente um estrangeiro e busca, numa tentativa vã, compreender a totalidade da existência para constatar que "cada canto é um mundo completo e nunca o todo" e que o pó é o que constitui todos nós. "Aos vivos, que direi eu? Digo que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído" - os Sermões do padre Antonio Vieira compondo a morbidez daqueles dias de infância e de sua vida presente sem completude nem satisfação.

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