Tempo de mudança

Em Ginger & Rosa, a inglesa Sally Potter mostra como era ser jovem em 1962

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2013 | 02h12

Sally Potter já fez filmes de época como Orlando - A Mulher Imortal, de 1992, sua cultuada adaptação do romance de Virginia Woolf, mas ela diz que é muito mais complicado fazer uma 'period piece' de uma fase mais recente, como o novo filme, Ginger & Rosa, que se passa em Londres, em 1962. "Exigiu muita paciência e pesquisa", diz ela, numa entrevista por telefone da Suíca, onde, na terça-feira, apresentava o filme para uma plateia de Genebra. "Não se trata apenas de prestar atenção aos figurinos e objetos de época. A cidade (Londres) mudou muito nos últimos 50 anos e às vezes tenho a impressão de que é mais fácil viajar ao futuro do que ao passado."

Ginger & Rosa estreia amanhã em São Paulo. Mais do que como "autora", Sally define-se como uma cineasta "escritora" e isso, segundo ela, explica porque, em geral, se passam quatro ou cinco anos entre cada um de seus filmes. "Em geral, o primeiro ano é para mostrar o anterior. Tenho viajado bastante com Ginger & Rosa, mas sinto que já estou esgotando esse ciclo. Depois, preciso parar um pouco, antes de me decidir pelo próximo projeto. O roteiro me toma pelo menos um ano, mais um para o financiamento e outro para a realização. Já se foram cinco anos", ela ri.

O filme conta a história de duas amigas jovens que fazem suas descobertas de sexualidade numa Inglaterra que, em seguida, vai mudar. "Não estamos ainda na Swinging London, que, na verdade, vai surgir dentro de dois ou três anos. Ginger & Rosa é muito mais sobre um ciclo que se encerra, um mundo tradicional ao qual as garotas, mesmo inconscientemente, dizem adeus. Quem poderia prever a amplitude das mudanças que os Beatles, a pílulas e a minissaia trariam para o comportamento social nos anos 1960?", pergunta-se a diretora.

Ginger (Elle Fanning) tem 17 anos em 1962 - Sally tinha 12. "Não me baseei nas minhas lembranças do período, mas o filme, com certeza, tem muito de pessoal, se não de autobiográfico." O repórter pergunta se, para ela, essa história de amizade e traição, de descobertas (afetivas e sexuais) e comprometimentos políticos é sobre o rito de passagem. As garotas, Ginger e Rosa (Alice Englert) com certeza mudam. "Não tenho muita certeza de que é sobre o rito de passagem. As pessoas dizem que sim, mas tenho minhas dúvidas sobre essa passagem para a maturidade. Tenho a impressão de que até hoje não atingi a minha." E ela ri, uma risada gostosa.

É uma mulher humorada. "Tenho meus momentos de concentração, mas procuro ser descontraída. Num set de filmagem ajuda bastante. Não faço questão de ser temida nem de me impor pela autoridade. Venho de um meio muito liberal. Meus pais sempre me incutiram a ideia de que a persuasão é mais importante. Se você acredita no que faz, termina por convencer os outros." As garotas participam de protestos contra a bomba, numa época em que o holocausto neclear estava na ordem do dia da Guerra Fria. Ginger tem problemas com o pai. e quando ele se envolve com Rosa ela se sente duplamente traída.

"Esqueça o que falei anteriormente sobre o rito de passagem. Nada amadurece mais a gente que a traição. Implica em perda, que você precisa superar." O filme é sobre isso e Sally se regozija por haver encontrado atrizes como Elle e Alice. "Embora jovens, são talentosas e profissionais. Fizemos um trabalho de preparação, de leitura do roteiro. Gosto de preparar os filmes. Isso me dá segurança, e a compreensão das personagens e situações facilita as mudanças que muitas vezes são necessárias num set. Você já pensou tanto, avaliou tanto que não vai ser uma pequena mudança que fará ruir o castelo de cartas que tenta armar."

O filme é o castelo de cartas. "Tudo tem de parecer real, mas nada é verdadeiro", ela reflete. O filme trata de sexo, mas de maneira velada. "Sou do tipo que prefere sugerir. Não mostro nada. O importante é o clima." O repórter lembra um de seus filmes antigos - The Tango Lesson, de 1997 -, sobre uma coroa que descobre a sexualidade tomando a lição de tango do título. "Não há nada mais sensual que o tango. Tudo ali configura o sexo, mas nada é explícito. É como gosto de trabalhar." Sobre a acolhida a Ginger & Rosa, ela diz: "A gente nunca sabe como os filmes serão recebidos. É sempre uma incógnita. Me comprometo tanto que fico triste, se os filmes não têm repercussão. É como arrancar um pedaço da gente. Tanto esforço por nada. Mas Ginger & Rosa tem ido bem, de público e crítica. Os debates aqui na Suíça têm sido gratificantes. Ainda vou à França, que tem, talvez, a imprensa mais especializada do mundo. Vão gostar? Espero."

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