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Tempo de Festas

A maioria não tem lembrança da doação de Cristo, nascendo nesse vale de lágrimas

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 03h00

São estabelecidos e definidos. Eram e continuam a ser dias santificados (onde os santos eram obsequiados com rezas, cânticos e oferendas); hoje, são feriados. A maioria não tem lembrança da doação de Cristo, nascendo nesse vale de lágrimas; e dos Reis Magos que, diz a lenda, inventaram os presentes natalícios. Deles vem a consciência da relação nas quais as palavras são substituídas por “presentes” que muitas vezes nos fazem emudecer de emoção...

São dias da folga que marcam a fluidez infinita do tempo, tornando-o concreto e com isso promovendo utopias e distopias, progressos e atrasos. 

São dias reversos, nos quais - tal como no carnaval que o verão de fim de ano anuncia - trocamos o “batente”, a dureza do trabalhar que obriga a “sair de casa” pelo glorioso, brasileiríssimo e metafísico “ficar sem fazer nada” - esse tempo parado ou disponível.

Um mundo onde o “Eu” está em primeiro lugar é substituído por um “Nós” relacional que nos obriga a “dar presentes”. E cada presente dado inaugura ou reafirma um elo muitas vezes esquecido que a “lembrancinha” natalina modestamente reanima porque a generosidade é humilde. 

Dar insinua receber, mas não determina o devolver imediato da troca comercial porque é Natal. Época em que o mundo recebeu de presente o Salvador, que a ele deu uma mensagem exemplar: não faça com os outros o que você não quer que façam com você...

Todo presentear enfeixa a grande mensagem de um Cristo-Salvador que sugere sair dos liames particularistas da tribo para o da solidariedade universalista do mundo. Um mundo no qual todos somos mais irmãos do que habitantes. Nesta fraternidade estaria o tão difícil “amar ao próximo como a si mesmo”.

Comemorar o Natal é dar o presente que nos torna presente no outro - amigo ou desconhecido -, com cuja filha nos casamos, retribuindo os afins com os netinhos que são a mais bela síntese humana: a ilusão concreta e grandiosa de que seremos salvos. De que jamais iremos morrer porque de cada um de nós haverá essa lembrança que liga o mundo dos vivos e o dos mortos: o amor que na breve lembrança trará de volta um pouco do que fomos. 

Que vocês leitores troquem muitos presentes e juras de solidariedade e amor com os seus e, acima de tudo, com os outros...

E com essa Mãe-Terra da qual temos tirado tudo e hoje nos lembra que ela, como nós, merece a pausa do não fazer nada. Ou seja: a pausa do amor e para o amor. 

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