Tempo de avaliar o passado da China

Jia Zhang-ke está de volta a Cannes mostrando seu novo filme, I Wish I Knew, que segue a linha de 24 City. Construído nas bordas do documentário e da ficção, o filme prossegue com as investigações do cineasta sobre as transformações que mudaram a imagem da China nas últimas décadas. Numa entrevista realizada ontem, Jia negou que seja contra as mudanças, mas reafirmou que o que lhe interessa é o humano - os efeitos que elas têm sobre as pessoas.

CANNES, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Em 24 City você acompanhava nove pessoas. Agora, focaliza 18. Como fez a seleção dos personagens de seu novo filme?

A intenção era realizar 100 entrevistas, mas conseguimos relacionar umas 80 pessoas e entrevistamos 18. A entrevista com cada uma durou em torno de 4 horas. Por aí, você vê a quantidade de material que tinha para editar. O mais impressionante não são as pessoas que conseguem dar seu testemunho, mas as muitas que ficaram de fora.

Você escolhe gente de cinema, o cineasta Hou Hsiao Hsien, um dos colaboradores de Michelangelo Antonioni em seu documentário sobre a China. Por quê?

Queria dar testemunho sobre o cinema. O caso do filme de Antonioni virou um retrato perfeito da China na Revolução Cultural. O filme foi desautorizado como antirrevolucionário e todos os que participaram dele caíram em desgraça. O de Hou, As Flores de Shangai, ilustra as dificuldades de se fazer um filme de época, tentando captar mudanças na sociedade chinesa.

Essas mudanças há tempos o perseguem, mas em I Wish I Knew parece querer abarcar um período de tempo maior. Por quê?

Para entender o que ocorre hoje na China, é preciso recuar no tempo. A história oficial criou uma falsa imagem da China para os próprios chineses na era Mao. Isso continua hoje, porque temos uma censura forte. Os problemas da China contemporânea têm suas raízes nesse passado que tento aprofundar.

Você foi homenageado na Mostra de São Paulo. Que imagem guarda da cidade?

Nós nos encontramos lá, não? Faço filmes para serem vistos e o público de São Paulo foi muito caloroso com meu cinema. Respeito muito os cinéfilos. Adorei São Paulo. / L.C.M.

NA CROISETTE

E viva a França

Unifrance, a agência que faz a promoção do cinema francês no exterior, fez ontem aqui um almoço para lançar o próximo Festival Varilux no Brasil, que ocorrerá a partir de 2 de junho. Reserve lugar na sua agenda.

Terrorismo

Hoje vai ser a prova de fogo dos cinéfilos em Cannes 2010. A partir do meio-dia (horário local), Olivier Assayas exibe sua monumental cinebiografia do famoso terrorista Carlos . Dura cinco horas e foi produzido para a TV.

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