Tempo aprisionado

O encontro de um casal é o mote de Paraíso, nova peça de Dib Carneiro Neto

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h10

O amor pode estar longe. Muito longe. E, mesmo quem chega lá, pode deparar-se com um lugar estranho. Em nada semelhante à projeção idílica que costumamos acalentar. Com Paraíso, espetáculo que estreia hoje no Sesc Belenzinho, o dramaturgo Dib Carneiro Neto flagra um casal aprisionado em um espaço não identificado. Encerrado em algo que pode ser um inferno. Ou não. "Sempre me interessei no modo como cada pessoa entende o que é o paraíso ou o inferno", diz o autor. O mote para o texto vem daí. Mas também se junta a outras questões: a loucura, a velhice, o afeto que pode ser fonte de satisfação - mas também de frustração e sofrimento.

Quem leva a obra à cena é Antônio Abujamra. Em sua concepção, o diretor optou por abandonar algumas das indicações da dramaturgia original e deu novos matizes a diversos aspectos. Por exemplo: Carneiro Neto escreve sobre um casal de idosos. O público verá, entretanto, dois jovens atores - Miguel Hernandez e Nathália Côrrea - como protagonistas. Outra leitura particular do encenador diz respeito à figura de um filho - que nunca aparece. O que deveria ser só uma evocação surge aqui encarnado por 20 intérpretes. "O filho é o futuro, a continuidade, a descendência, o que fica, o que deixamos, o que plantamos. Essa figura no espetáculo é representada por um coro de homens e mulheres, a diversidade humana", diz Abujamra. Não por acaso, ele assina não apenas a encenação como também a adaptação da peça.

Nessa versão que vem a público, quase todos os laços que poderiam conectar Paraíso à realidade foram apagados. Certo lastro existencialista ganha relevo, as personagens parecem completamente descoladas do cotidiano. Não estamos diante das representações do que seriam um homem e uma mulher específicos. Antes, o que sobe ao palco são corporificações de ideais de feminino e masculino. "É o encontro entre o homem e a mulher em sua essencialidade, como representantes do gênero humano", lembra o diretor.

Preso nesse local, que não sabemos bem qual é, esse casal dá indícios de que aguarda uma visita. Estarão no asilo à espera de um parente? Serão loucos em um hospício? Ou já morreram e estão no céu, na expectativa de que algum conhecido venha fazer-lhes companhia? Nenhuma dessas perguntas merece resposta. Apenas pairam como indicativos de interpretações possíveis, janelas através das quais cada um pode se arriscar a ver o espetáculo. Outra chave para ler a montagem está na literatura de Samuel Beckett. Aqui também existe um Godot, alguma entidade que controla a situação dramática ainda que nunca venha a se revelar. "Não creio que existam histórias novas a serem contadas. O que há são novas maneiras de contar as mesmas histórias", pontua o dramaturgo, reconhecido por criações como Salmo 91 e Adivinhe Quem Vem para Rezar.

O filho sobre o qual tanto se fala ao longo da peça provavelmente está morto. E, ao que tudo indica, foi assassinado pelo próprio pai. Estranhamente, porém, ele é aguardado.

Conflitos atormentam indefinidamente esse par. Se eles estão no paraíso, este não é um éden de harmonia e paz. Além da criança morta, eles repisam à exaustão o próprio relacionamento. Ela ressente-se por não ser completamente correspondida em seu amor. E lança à plateia mais uma dúvida insolúvel: Como é possível que uma só criatura guarde tanto afeto dentro de si? O autor explicita aí a influência de Chico Buarque em canções como Todo o Sentimento. Talvez o amor seja mesmo penoso, desconfortável como um lugar estranho. Mas persiste o desejo de acreditar que, em algum ponto, dentro ou fora do mundo, todas as mágoas possam ser esquecidas. Algum "tempo da delicadeza", onde seja possível, simplesmente, seguir como encantado ao lado de alguém.

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