Tempestade que atinge a mente

Michael Shannon é poderoso em O Abrigo, de Jeff Nichols

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2012 | 03h06

Um homem, uma mulher, seus filhos, céus borrascosos. Não foi preciso muito mais que isso para que Jeff Nichols fizesse um dos grandes filmes norte-americanos dos últimos anos, mas você não vai poder ver O Abrigo nos cinemas. The Shelter, título original, está sendo lançado diretamente em DVD no País.

O fato permite que se discutam os critérios de mercado, que regem a economia do cinema, integrada à economia geral. O Abrigo com certeza não foi considerado comercial a ponto de merecer um lançamento em salas. Não adianta reclamar - Michael Shannon também não foi indicado para o Oscar, e além de ser melhor que o carismátrico Jean Dujardin de O Artista, ele oferece aqui simplesmente a melhor interpretação que você terá visto em anos.

A questão proposta pelo diretor Nichols é de foro rigorosamente íntimo. O cinema, por meio do gênero chamado de disaster movie, tem contado muitas histórias de hecatombes. Existe tecnologia para filmar tornados, ondas gigantescas e o que mais nascer da imaginação de roteiristas e diretores. E se a hecatombe existir somente na imaginação do personagem? Como se filma uma grande tempestade na mente de uma pessoa?

Tal é o desafio proposto por O Abrigo e o espectador, perplexo diante da intensidade das cenas e conflitos do filme, vai se interrogar se aquilo é realidade ou puro delírio de Michael Shannon. Nichols subverte o cinema de gênero, o disaster movie, para narrar a crise de um casal. Neste sentido, o filme que você vai ver em casa tem muitos pontos comuns com A Árvore da Vida, do cultuado Terrence Malick.

A mais óbvia dessas convergências é a personagem interpretada por Jessica Chastain, a mulher e mãe, aqui, como no longa de Malick. Para ambos os diretores, a mulher representa a consciência. Se falasse mais com a mulher, se não se isolasse mais nos próprios medos, Michael Shannon não faria a viagem paranoica de O Abrigo. Mais do que sobre a família, o casal, O Abrigo é sobre essa verdadeira tragédia norte-americana, a paranoia.

Procurando na internet, você encontra entrevistas gravadas do diretor em que Nichols fala, com absoluta franqueza, sobre como nasceu o projeto do filme. Ele havia feito Shotgun Stories e os críticos acharam que estava renovando a produção independente, dando-lhe outra cara que não aquela estabelecida pelos filmes de Sundance. O próprio recurso ao cinema de gênero, espetacular, era algo novo, mas no Brasil, pelo menos, não foi suficiente para que a Sony, que lança O Abrigo em DVD, se dignasse a arriscar com exibidores o lançamento nas salas. Apesar do sucesso (de crítica), Nichols, que virava pai, não tinha uma fonte segura de renda. A velha história de pagar as contas e ter um fundo para garantir a segurança da família, e do filho. A insegurança, como ele diz, é a mãe da paranoia. Nasceu assim. A Árvore da Vida pode ter tido melhores críticas (e público), mas o céu borrascoso de Nichols não é menos cósmico. Shannon é um grande ator. O Abrigo é um grande filme.

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