Tempestade à deriva

Uma das mais belas obras de Shakespeare naufraga na trama incompreensível

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

A vida em sociedade, ironizou Machado de Assis, prestigia as cabeças ocas e pune severamente as ideias fixas. Pois a arte exige o contrário. No teatro, sobretudo, a concentração temporal e espacial obriga o artista a declarar de modo enfático o motivo que o leva a encenar determinada peça. Na falta do sopro ardente do desejo ou da ideia fixa dependurada no trapézio do cérebro, a melhor peça teatral do mundo toma-se, para o público, uma experiência aborrecida.

Ninguém acreditaria, está claro, que A Tempestade encenada agora sob a direção de Marcelo Lazzaratto chegou ao palco sem que o diretor e o numeroso elenco tivessem um bom motivo para escolher, entre milhares de textos, esta peça outonal de Shakespeare. Entre nós, o teatro sério demanda gigantesco esforço de produção material e boa dose de sacrifício pessoal de todos os envolvidos. Alguma coisa urgente queriam esses artistas, uma vontade especial deve ter animado tanto trabalho e fadiga e há certamente mérito no apreço da equipe por uma das mais belas obras da dramaturgia ocidental. O que quer que tenham pensado os criadores do espetáculo, contudo, não se tomou perceptível do ponto de vista da plateia. Há muitos motivos para essa opacidade, e nem todos são de natureza técnica.

Acima de tudo não é possível compreender a narrativa porque, seja qual for a perspectiva contemporânea desejada pelo diretor, a peça tem uma estrutura de subordinação incontornável. Quem comanda os acontecimentos, cria as peripécias e as orienta verbalmente é Próspero, o regente degredado de Milão. Sendo contra ou a favor da autoridade suprema do protagonista (nos anos 60 a voga era condená-lo por ser colonialista e reformista), não é possível ignorar sua autoridade sobre a trama sem afetar o mecanismo da peça. Desde o prólogo deste espetáculo, entretanto, a fragilidade do desempenho de Carlos Palma faz com que as ações da peça, do naufrágio até a pacificação do desenlace, se sucedam por inércia. Sem energia física, com uma dicção comprometida pelo esforço de alcançar um volume audível, o ator deixa de cumprir a função primordial desse protagonista que é a de explicar o modo como construiu o seu mundo mágico, quem são aquelas figuras em cena e o que deseja delas.

Toda a representação é afetada pela abulia do protagonista. Algumas personagens são audíveis e nítidas (é o caso de Miranda, interpretada por Karen Coelho), mas isso não as torna compreensíveis, uma vez que está omisso o comando que poderia justificar sua presença na ilha. Cortesãos, marinheiros, seres fantásticos e a dupla de amorosos da peça movem-se sem a interdependência que lhes daria a manipulação de Próspero. Desse modo a peça torna-se um conjunto de fragmentos à deriva, com pedaços mais ou menos interessantes. Na verdade, a parte mais interessante é a dos marinheiros bêbados pelo simples motivo de que são cenas mais fáceis de executar. Em A Tempestade os interlúdios farsescos não são tão caprichados quanto os de outras peças de Shakespeare. Há nesta peça uma comicidade mais sutil, mesclada à crueldade e a uma visão irônica dos mecanismos mundanos em todas as esferas da sociedade.

Outro problema da encenação é tornar estilisticamente indistintos esses grupos de diferentes estratos ficcionais, que se moveriam de acordo com os desígnios de Próspero. Além do comando omisso, os diálogos entre as personagens têm cadência uniforme e, com exceção das personagens farsescas, os mesmos problemas de elocução. As frases começam agudas e altissonantes, decaem na metade do verso e sobem na última sílaba. É um mistério a sobrevivência da entonação retórica em uma encenação contemporânea, porque o único lugar onde ainda se ouve essa cantilena arcaica é nas tribunas onde discursam políticos. Há muito tempo o nosso teatro aprendeu a insuflar na artificialidade do verso branco o sopro de verdade que repousa sobre o significado da frase. Desse modo, não é preciso destruir a forma poética com prosaísmos e tampouco martelar frases. Neste espetáculo, é o significado das falas o que os intérpretes desperdiçam em primeiro lugar. A declamação à moda antiga parece consequência de um entendimento superficial do texto.

Faz falta uma visão particular da peça, mas talvez haja um resquício de intenção no tratamento passadista dado aos figurinos e à gestualidade. A corte imita a iconografia do século 17, Ariel (interpretado por Paulo Goulart Filho), os amorosos e o próprio Próspero são estilizados à semelhança das comédias-balé francesas. Ao todo, a imagem do espetáculo está em completo desacordo com a cenografia retilínea de André Cortez que, além de não combinar com o resto, atrapalha as entradas e saídas, forçando os intérpretes ao manuseio de uma portinhola desajeitada.

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