Itamar Jr.
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'Temos que separar o sofrimento da dramatização', diz Christian Dunker

Psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo faz alerta sobre usuários que utilizam as redes sociais para se promover

Entrevista com

Christian Dunker

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 05h00

Durante a pandemia, diversas pessoas utilizam as redes sociais para compartilhar sentimentos e questões do dia a dia, nem sempre tão positivas. Apesar do clima de solidariedade estar em alta devido o triste momento em que vivemos, é preciso saber diferenciar aqueles que desejam compartilhar o sentimento genuíno e ter trocas afetivas com seus seguidores, daqueles que dramatizam situações em busca de atenção, likes e populariedade.  O psicanalista Christian Dunker conversou com o Estadão a respeito do fenômeno.

Além de competirem as felicidades, as pessoas também estão competindo as infelicidades nas redes. Como explicar?

Eu juntaria esse fenômeno com uma coisa que a gente vê naturalmente que foi o início do selfie. A ideia de propagar sua felicidade num momento de penúria é sentida como algo profundamente inadequado. Isso funcionou para aplacar um certo narcisismo ligado ao exibicionismo. Só que existe uma outra forma narcísica complementar, que diz ‘olha pra mim que eu não sou digno do seu amor, olha pra mim e veja como eu fui vítima do mundo’. E aí a gente tem que separar o sofrimento da dramatização.

O convite da opinião alheia sobre questões íntimas é saudável, de alguma forma?

Isso é sinal de desespero. É sinal de que a gente não está conseguindo encontrar bons destinatários - seja psicólogos e psicanalistas, seja um amigo. A busca é tanto no sentido de oferecimento quanto da demanda. De uma escuta por qualquer um, uma escuta pouco discriminada, pouco orientada. Ela pode ser um sinal de que a angústia está passando de um certo limite e isso pode inclusive se voltar para a própria pessoa. Tem pessoas que são especializadas em perceber isso, e usar isso, seja num sentido de extorquir, de maltratar o sentimento genuíno da pessoa, seja no sentido de manipular, ética e politicamente, esse momento que, por si só, é tão difícil.

E criando um espaço onde exista um outro que divida minhas dores? Aí pode ser algo bom?

Sim. Nesse sentido, com algumas fronteiras, algumas limitações, inclusive em termos de personalização. Fazer isso vendo a face do outro, ouvindo a voz, é bastante diferente do que fazer usando um pseudônimo e se abrindo para qualquer um. Quando você cria uma comunidade, ainda que virtual, ela inicia um processo de autorregulação. O que não quer dizer que todos os processos vão terminar bem, alguns podem evoluir muito mal. Mas, em regra, isso seria o comportamento similar ao que chamamos de grupos de apoio. Doenças muito graves, como câncer, Alzheimer, muitas vezes requerem grupos de apoio para que aquela experiência possa ser ultrapassada e para que os familiares possam entender mais o que está se passando. Então esses grupos têm sim uma função terapêutica que pode ser bastante útil, bastante interessante.

No seu livro (‘Reinvenção da Intimidade’), você fala sobre essa questão da gente aumentar a dor quando falamos com o outro. Por que isso acontece?

Isso acontece por vários motivos, mas muitas vezes é porque não estamos conseguindo abordar nós mesmos e olhar as raízes do nosso sofrimento. Então, a gente o exagera como uma espécie de pedido para o outro, para que ele faça alguma coisa. E também porque em alguns ambientes discursivos, aquele que sofre mais é mais reconhecido. Então aí pode estar gerando uma espécie de disputa, no fundo, para ver quem sofre mais, e isso não é muito produtivo do ponto de vista de compartilhar realmente o sentimento. Há pessoas que parecem querer falar do seu sentimento, para adquirir uma autoridade, para se colocar numa posição de proteção e não exatamente para analisar as causas que estão levando a esse sofrimento.

A pandemia tem relação com essa exposição?

Há um dado meio polêmico, porque, por um lado, a gente precisa mais das redes, elas estão substituindo o contato presencial, a conversa, a sociabilidade. Mas por outro, há uma espécie de mutação da qualidade da conversa. A polarização vem de ruído ou interesse por checagem, veracidade de fatos, críticas de fake news e também na procura por intimidades um pouco mais autênticas. Isso pode ter qualificado um pouco mais as conversas porque a gente foi submetido por um sofrimento mais real. Isso faz com que a gente olhe para o lado com solidariedade, simpatia, o que nem sempre é o caso daqueles que estão querendo ganhar o campeonato mundial de quem sofre mais.

Houve um aumento de procura por ajuda profissional durante esse período?

A percepção geral é de que os consultórios estão lotados. Os analistas e terapeutas estão exaustos porque se desdobram em acolher casos antigos que voltam, situações dramáticas de perda de emprego, perda de pessoas, lutos gravíssimos. E é próprio da nossa atividade não recusar ajuda nessa hora.

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