Temática cristã, mas com humor

O novo romance do espanhol Eduardo Mendoza suscita uma pergunta inquietante: o que fazer com o legado cristão da civilização ocidental? Em português, conhecemos as respostas de José Saramago, que reescreve ironicamente textos bíblicos em Caim (2009) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Saramago diverte e inquieta o leitor ao submeter a uma lógica cartesiana as histórias bíblicas, fazendo-nos rir do sagrado. Neste A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato, a estratégia é outra: uma sátira que reconstrói em tempo histórico os antecedentes do mito fundador do cristianismo. Jesus é um garoto judeu, cujo pai, José, é acusado de assassinato e condenado à morte na cruz. Pompônio, um filósofo diletante que sofre de problemas intestinais, tenta provar a inocência de José em troca de algumas moedas. Eis a trama, própria de um romance policial.

Wilson Alves-Bezerra, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

A reconstrução de Mendoza é minuciosa, a começar pela linguagem. Ele lança mão de um castelhano que lembra a picaresca espanhola, com inserções de termos e expressões latinos e gregos, resultando numa prosa arcaizante e bem-humorada.

Seu maior êxito consiste em narrar a adolescência de Jesus pela perspectiva de um não-judeu. É o filósofo-detetive Pompônio quem destitui Jesus e seu deus de qualquer condição sagrada: "Javé não sabe de nada, e você é um maldito sofista!"

A torção no gênero policial se dá quando, solucionado o assassinato, a astúcia de Pompônio não produz o efeito esperado: o tribuno romano se recusa a revogar a sentença, já que o intuito primeiro era impedir qualquer levante na Galileia: "O direito romano é um instrumento a serviço do Império, não o contrário."

A fala do tribuno termina por submeter o trabalho detetivesco do filósofo ao trabalho advocatício do Império, e levar às últimas consequências o questionamento quanto à existência de uma "justiça justa". É em tal contexto que se criam as condições para o advento de um messias judeu e de um deus de justiça e bondade, que salvará os injustiçados. Eis a apoteose do messias acidental.

A versão de Mendoza do mito cristão nos mostra o quão vigente ainda é a tradição católica na Espanha, na literatura e fora dela, e como seu livro, no fim das contas, não se insurge contra ela; parece querer desconstruir o mito, mas termina por se conformar em confirmá-lo: tinha que acontecer assim.

Wilson Alves-Bezerra É Professor de Letras da Ufscar, Tradutor e Autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga (HUMANITAS/FAPESP)

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