Tema da mostra encerra

The Forgiveness of Blood, de Joshua Marston, aborda o primitivo código de sangue no país, onde foi filmado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

E o Berlinale está terminando. Ontem, foi exibido o último filme concorrente, The Forgiveness of Blood, de Joshua Marston, seguido de uma sessão popcorn, isso é, pipoca. O espanhol Jaume Collet-Serra, diretor da série Rec, veio mostrar seu thriller Unknown (Desconhecido), rodado em Berlim e que será distribuído no Brasil pela Warner.

Vamos por partes, como diria o esquartejador. The Forgiveness of Blood foi um bom encerramento para a mostra competitiva da Berlinale de 2011. O filme tem tudo a ver com Abril Despedaçado, de Walter Salles. Parece, inclusive, baseado no mesmo original de Ismail Kadaré - parece, porque o roteiro é original. Trata dos crimes de sangue na Albânia, que Salles, a versão dele, transpôs para o Nordeste.

É a história de uma família. O pai vive às turras com o vizinho. Quando o irmão e ele matam o vizinho, o velho código de honra é colocado em marcha. O assassino foge, seus filhos viram as vítimas preferenciais da família da vítima e não importa que sejam crianças. Um adolescente e um menino. Uma garota, a filha, toma as rédeas da situação e, para garantir o sustento, já que o irmão não pode sair de casa, sem risco de vida, ela executa as funções paternas. A situação torna-se insustentável.

Estilo clássico. Marston é o diretor de Maria Cheia de Graça, que obteve certa repercussão há alguns anos, sobre as garotas que aceitam ser mulas e transportam droga clandestinamente para os Estados Unidos, no próprio corpo. Ele continua gostando de temas fortes, e polêmicos. O código de sangue na Albânia é algo muito primitivo, contrário à modernidade, mas continua valendo. O filme é narrado num estilo clássico, mas o diretor acerta na paisagem, filmando in loco e contando com atores locais. Os jovens que formam o casal de irmãos, Tristan Halilaj e Sindi Lacej, são desde logo candidatos aos prêmios de interpretação - embora, para dizer a verdade, essa seja uma categoria em que o júri presidido por Isabella Rossellini talvez tenha as maiores dificuldades para escolher. São muitos os bons atores desta Berlinale, mais, até, que os filmes.

O thriller de Collet-Serra bate na tecla do homem errado. Liam Neeson chega com a mulher a Berlim para participar de uma conferência. Ele esquece a mala no aeroporto, o táxi sofre um acidente e tem início um pesadelo. Ao despertar do coma, o personagem descobre que a mulher é casada com outro, que ostenta seu nome. Ao tentar descobrir quem é, o herói vira alvo de uma caçada humana. A questão da identidade é muito complicada para sugerir sem entregar a trama. Digamos apenas quer Collet-Serra joga com temas como paranoia e conspiração. O filme deixa-se ver, mas é menos divertido do que o alemão Meu Melhor Inimigo, de Wolfgang Murnberger.

Para justificar sua presença na seleção oficial, mesmo fora de concurso - como parte do programa Berlinale Special -, contam pontos como o fato de ter sido feito na capital alemã, com amplo recurso de sua paisagem, e também de ostentar, no elenco, a presença de Diane Kruger, como a bela taxista que ajuda Neeson. Diane é um valor seguro, talento mais beleza, para animar o tapete vermelho berlinense, carente de estrelas - o que temos visto por aqui são astros, preferencialmente (Ralph Fiennes, Kevin Spacey, Jeremy Irons, Gerard Butler, etc.).

Já que o festival termina hoje à noite, podem-se arriscar algumas premiações. Isabella Rossellini terá dificuldades para explicar se o seu júri não se decidir entre o iraniano Nader and Nisin, A Separation, de Asghar Farhadi, e o húngaro O Cavalo de Turim, de Bela Tarr. O primeiro é favorito para o Urso de Ouro, o segundo para o de Prata, seja como melhor direção ou prêmio especial do júri. A atriz iraniana Leila Hatami e o húngaro Janos Derszi seriam ótimas escolhas, mas os jovens de The Forgiveness of Blood e o casal de Come Rain, Come Shine, do coreano Lee Soon-ki, também seriam boas escolhas. A Alemanha fez boa figura com Sleeping Sickness, de Ulrich Köhler. A palavra, agora, é do júri.

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