Tema da morte como tendência

Neste começo de ano, outras produções investigam as fronteiras da vida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2011 | 00h00

Pegue um filme já em cartaz - O Primeiro Que Disse, de Ferzan Ozpetek. Num determinado momento, há uma morte e ela deflagra um movimento pela vida. Diante de um caixão, frente a frente, cada um na sua alça, inimigos terminam por se reconciliar, para que a dança da vida continue. É o tema dominante neste comecinho de 2011. Amanhã entram mais dois filmes que investigam as fronteiras da vida e da morte.

Um deles é Além da Vida, o novo (e maravilhoso) Clint Eastwood. Depois de falar da morte em Menina de Ouro e Gran Torino, o grande diretor passa para o lado de lá, mas ele não quer fazer o Nosso Lar do cinema de Hollywood. O que lhe é interessa é o aqui e há um aperto de mãos, no desfecho, que é uma das imagens mais simples - e belas, emocionantes - do cinema atual. Aguarde para ver.

O outro é o novo filme de Julie Bertucelli, a diretora de Desde Que Otar Partiu. Na entrevista acima, ela é a primeira a admitir que Otar e A Árvore tratam de temas similares. A morte, o luto, a vida. O que o cinema está querendo nos dizer em 2011? Ainda é cedo, prematuro para avaliar, mas há um primeiro movimento ao qual é bom prestar atenção.

Há algo de muito simbólico na existência da árvore. Na origem, a árvore bíblica da vida, no sentido teológico, seria aquela cujos frutos proporcionariam a imortalidade a Adão e Eva e a seus descendentes no paraíso, segundo o plano original da Criação. A desobediência dos pais primitivos, comendo os frutos da árvore da ciência do bem e do mal levou o onipotente - Deus - a puni-los com a morte e a expulsão do paraíso. A árvore é uma personagem essencial. Não por acaso, a árvore da vida está no centro do novo Terrence Malick, com Brad Pitt, com estreia prevista para breve.

A Árvore conta a história da família O"Neill. A morte súbita do patriarca, aos pés da imponente figueira que emoldura a casa, abala a unidade familiar. A mãe, Charlotte Gainsbourg, fica presa aos objetos pessoais que estabelecem sua história com o morto. A filha, a única entre mais três irmãos, acredita que a alma do pai vive no interior da árvore. E tenta se comunicar com ele. De arte, ela sobe na figueira e pede ao pai ajuda para concluir as tarefas escolares. De noite, acredita ouvir sua voz no farfalhar dos galhos, sob o efeito do vento.

Não é uma novidade que o cinema se valha de um panteísmo lírico, usando a natureza como espelho para colocar na tela a complexidade dos sentimentos humanos. Julie Bertucelli conta que resolveu filmar na Austrália e buscou uma árvore - em particular - porque queria fazer essa ligação. Na trama do filme, a vida continua. A mãe arranja um trabalho, um novo amor. O irmão mais velho resolve partir. A própria árvore não para de crescer e suas raízes poderosas ameaçam os alicerces da casa. A árvore terá de ser sacrificada, mas como, se para a garota ela representa o próprio pai?

Um dos três personagens de que Clint Eastwood se vale para falar de vida e morte em Além da Vida é um garoto que sobreviveu às morte do irmão mais velho. Chega um momento em que ele também vai ter de encarar o desafio de seguir em frente sozinho - em termos, porque, como diz a diretora de A Árvore (e como sugere o próprio Clint), o luto é uma viagem que a gente inicia para se desligar do outro, ao mesmo tempo em que tenta guardá-lo no interior, como um exilado que quer manter a ligação com suas origens. O ano começa denso. Para o cinéfilo, pode ser o prenúncio de uma temporada de muita reflexão e também prazer estético.

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