Tem tango no samba

Nunca antes na história deste País, os argentinos estiveram tão em alta na nossa TV

Alline Dauroiz/Cristina Padiglione/Etienne Jacintho,

28 de novembro de 2010 | 07h00

Los Hermanos. O ator Pablo Bellini, que interpreta o Hector de 'Araguaia'

 

Na contramão do futebol, a TV brasileira está hoje abastecida de bem-sucedidas parcerias com los hermanos argentinos. Nem por isso foi simples convencer algum representante desse movimento a posar para este suplemento vestindo uma camisa da seleção argentina. Portenho, Pablo Bellini topou estampar nossa capa e página 6, no máximo com uma bandeira de seu país – foi convencido pelo empresário que vestir a camisa, propriamente dita, seria demais até mesmo para um nativo.

 

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Receio de ter sua imagem atrelada a alvo de tamanha rivalidade também foi o que motivou o veto da direção da Band à nossa proposta de vestir a dita camisa em Rafinha Bastos ou Marco Luque, ambos no comando de dois dos seis programas que os argentinos da produtora EyeWorks/Cuatro Cabezas já emplacaram na emissora. Carro-chefe da parceria, o CQC, aqui batizado como Custe o Que Custar, abriu portas para o E-24, Polícia 24 Horas, A Liga, O Formigueiro e Classe Turista, que chega ao ar em janeiro. Na Argentina, o CQC original, Caiga Quien Caiga, acaba de faturar seu primeiro Emmy.

 

"Há confiança, há respeito e os resultados são bons. É razoável repetir as boas experiências", diz o criador do CQC Diego Guebel, que, bem ao modo argentino, completa: "Además, somos muy simpáticos y queribles (adoráveis)". Diretor do CQC no Brasil e responsável pelo sucesso da parceria com a Band, Diego Barredo endossa o diagnóstico: "Somos muito bons". Brincadeirinha, ele emenda. "Menos de 10% da nossa equipe aqui é de fato argentina", conta. Para Barredo, a qualidade do trabalho humano na Argentina justifica o êxito dos conterrâneos na indústria do audiovisual e o crescimento do parque de estúdios em seu país. Daí o poder em atrair para lá também a produção de muitos programas de outros países da América Latina.

 

É o caso da sucursal argentina da produtora holandesa Endemol, que conta com dois megaparques de gravações em Benavidez, a 35 km de Buenos Aires. Com estrutura para a realização de games, gincanas e reality shows, o espaço é usado por TVs de todo o mundo na gravação de formatos da Endemol.

Na Globo, o reality show Hipertensão foi todo gravado lá, assim como Maratoma e Os Encolhidos, quadros do Domingão do Faustão. "Antes de chegarmos para gravar Os Encolhidos, TVs da Turquia e de Portugal haviam acabado de gravar o formato", conta o diretor-assistente do Domingão Paulo Nogueira. "E para quem participa das gincanas, viajar por uma semana para a Argentina, com a família e tudo pago, já é um prêmio."

 

Na TV paga. Custo, infraestrutura e qualidade de mão de obra formam o tripé que atraem canais e grupos estrangeiros aos estúdios argentinos para produzir atrações brasileiras. A Disney já adota a estratégia há alguns anos para programas de seus canais e formatos vendidos a outras redes. As versões latinas de Desperate Housewives – inclusive a brasileira, coproduzida com a Rede TV! – foram todas gravadas na cidade de Pilar, Grande Buenos Aires.

 

Lá, o figurino das donas de casa brasileiras seguiu o rigoroso inverno argentino, destruindo a tal identificação com o público. E só o elenco central era brasileiro. Personagens secundários "hablaban portunhol".

 

Risco menor corre o grupo agora com atrações do Disney Channel e do Playhouse Disney. Algumas são, sim, gravadas na Argentina, mas em estúdios fechados – como Zapping Zone e Art Attack (Disney); e A Casa do Playhouse Disney e A Floricultura de Nana (Playhouse).

Outro infantil filmado em terras vizinhas é O Esconderijo Secreto, recém-lançado pelo Discovery Kids. O canal levou os atores-mirins Manoela Ferreira, Gustavo Daneluz e Guilherme Seta à Argentina para gravar os programetes.

 

A Discovery decidiu também usar a expertise argentina em produção de reality shows para importar mão de obra. Em parcerias com Endemol e Cuatro Cabezas, o canal Discovery Home & Health trouxe profissionais argentinos para gravar episódios nacionais de 10 Anos Mais Jovem, Socorro! Tenho Filhos e Chef em Domicílio.

 

Quase lá. Krishna Mahon, produtora executiva de Programação e Conteúdo dos canais A&E, History e Biography, diz que é mais barato, sim, produzir na Argentina. "As produtoras aqui oferecem valores muito bons, mas fica difícil competir com o peso argentino", fala. A vantagem vai além do custo. "A Argentina tem tradição em fazer TV. É um mercado mais antigo que o brasileiro e com profissionais experientes."

 

Para Krishna, a Argentina não reinará sozinha por muito tempo. "O mercado brasileiro está crescendo. De cinco anos para cá, as produtoras independentes têm conquistado espaço." Para Krishna, o Brasil vai virar um polo de produção e, hoje, apenas serviços – como as cabeças de documentários internacionais narrados pelo jornalista Eduardo Bueno – e arte visual dos canais que comanda são feitos na Argentina. Já os programas nacionais são todos feitos com produtoras do País.

 

Outro exemplo do avanço brasileiro é a série musical Quando Toca o Sino, do Disney Channel. A atração teen fez o caminho contrário. Produção 100% nacional, o título teve o estúdio em São Paulo emprestado para elencos de outros países, inclusive da Argentina. Os atores vieram para a cidade filmar as versões latinas, ainda inéditas em seus países.

 

Fosse a rixa tão negativa como uns e outros pintam, a portenha Cris Poli já não teria, com êxito, interferido no dia a dia de mais de 100 famílias brasileiras, com aval da audiência e do departamento comercial do SBT, que vende uma série de produtos com a marca da Supernanny merchandising dela para o Banco do Brasil. "Até me dizem: ‘que bom que você veio para o Brasil para ajudar a gente’", conta a educadora.

A larga colaboração entre argentinos e brasileiros na televisão, no entanto, está longe de anular a rivalidade que prazerosamente nos une. Como diz o argentino Diego Guebel, "a rivalidade ‘futeboleira’ existe, existiu e existirá, a TV não mudará nada disso, assim funciona o humor de ambos os lados".

 

 

Grava lá para exibir cá

CHIQUITITAS

O SBT usou a estrutura montada pelo canal argentino Telefe para produzir, a partir de 1997, safras da novelinha que lançou nomes como Fernanda Souza e Deborah Falabella, hoje estrelas da Globo

 

DONAS DE CASA DESESPERADAS

A RedeTV! levou Lucélia Santos e outras brasileiras para a cidade cenográfica que a Disney fez em Pilar para as versões latinas de Desperate Housewives, em 2007.

 

ZAPPING ZONE E ART ATTACK

A Disney fracassou nas versões de Desperate Housewives, mas tem acertado em atrações infantis do Disney Channel gravadas em estúdios fechados na Argentina.

 

A CASA DO PLAYHOUSE DISNEY E A FLORICULTURA DE NANA

Em cartaz no Playhouse Disney, os dois programas para crianças em idade pré-escolar são feitos com atores brasileiros, mas filmados lá.

 

ESCONDERIJO SECRETO

O Discovery Kids levou três atores-mirins para o país vizinho. Lá, as crianças que vivem Nanda, Zé e Chico gravaram os programetes que estrearam recentemente na programação do canal.

 

10 ANOS MAIS JOVEM

Parceria com a Endemol, a versão nacional do reality do Discovery Home & Health foi gravado no Brasil, mas por uma equipe de profissionais argentinos, que foram deslocados para cá.

 

SOCORRO! TENHO FILHOS! E CHEF EM DOMICÍLIO

A Cuatro Cabezas também enviou mão de obra argentina para gravar aqui no País as versões locais dos dois realities do Discovery Home & Health.

 

DOCUMENTÁRIOS

O The History Channel usa a estrutura portenha apenas para gravar cabeças de seus documentários internacionais. O jornalista Eduardo Bueno gravou os textos em estúdio de Buenos Aires.

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