Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tem quem vai mudar este país

BELÉM DO PARÁ

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 02h00

Ainda bem que vivi o suficiente para estar onde estive, fazer o que fiz sexta-feira passada em Benevides, a 30 quilômetros da capital paraense. Estava gripado e a pressurização do avião tinha selado meus ouvidos. No entanto, esqueci tudo, tomado por uma energia louca ao entrar na unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará, Fasepa, liderada por Simão Bastos. Atravessei gramados brilhando ao sol. À minha frente, na quadra coberta, decorada com móveis e plantas que os socioeducandos fazem com velhos pneus, textos escritos pelos jovens e reproduções gigantes das ilustrações de Alexandre Rampazo, estavam 28 adolescentes, parte expressiva dos que cumprem medida de internação na unidade. Junto deles, pais e mães, parentes, professores. Ao fundo, larga mesa de pães, bolos e biscoitos, para os quais, naquela hora da manhã, eu olhava guloso.

Foi o primeiro Sarau Literário, iniciativa da Imprensa Oficial do Estado em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e a Fasepa, em uma unidade de ressocialização. Adrenalina geral, ansiedade, alegria, nervosismo.

Durante três semanas os jovens se debruçaram sobre meu livro, Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos, em que recuperei o circo de cavalinhos que meu avô José Maria construiu em Matão, SP, em 1910. O texto foi adaptado por Rita Dias e dirigido por Emiliano Picanço e a própria Rita. Naquela quadra me revi criança, enquanto jovens cantavam e dançavam, rodando em torno de um mastro com fitas coloridas, revivendo imaginariamente o carrossel. Transformados pela arte, deixaram de ser meninos que cumprem medidas socioeducativas.

Naquele momento, percebemos que criar é escapar, fugir de uma realidade que nos aflige. Conversei longamente com os meninos. Fala difícil, minha garganta travada pela emoção. O que me veio, ali naquele Norte tão distante, foi um amigo de infância, Zezé Crespo, abandonado, sem rumo, garoto que se desviou na vida, tornou-se ladrão, mas que chegava à minha casa e pedia ao meu pai livros infantis. Todos, menos eu, tinham medo dele. Um dia, Zezé devolveu O Patinho Feio e disse: “Vou ser como esse pato boboca aí. Vou ser cisne”. O boboca era por conta do machismo que ele precisava ostentar, o pato o tinha emocionado. Depois, desapareceu, não lhe deram chance na vida. Estes jovens de Benevides estão tendo a chance. Tanto que a iniciativa será estendida a outras unidades, vai se multiplicar. Enquanto Brasília é essa podridão, os políticos pautados pela corrupção padrão Fifa, há gente que vem comendo o mingau pela beirada do prato. Fazendo, fazendo.

Tomara Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos, os Livros Solidários, e os Saraus Literários, possam ajudar, com outras atividades, a tornar aqueles adolescente cisnes, refeitos para a vida. Abracei um por um. Houve a leitura de um conto meu, O Homem Que Espalhou o Deserto, feito por E., que me confessou: “Para não fazer feio, li e reli durante três dias”. Feliz, em sua roupa domingueira, trouxe o pai para me apresentar; o velho tinha lágrimas nos olhos. Minha visita àquela unidade fez parte do projeto Pan na Escola e Sarau do Livro, unidos ao Livro Solidário, conduzido pela jornalista Carmen Palheta, mulher de olhos iluminados. Há ali um Espaço de Leitura que aceita e pede doação. A Moderna enviou 10 volumes de Os Olhos Cegos, a Global mandou O Homem que Espalhou o Deserto. Os socioeducandos retiram de 25 a 30 livros e revistas todos os dias.

Fiquei horas entre aquela gente, cercado. Cada um querendo me mostrar um texto, um desenho. Inclusive, mudaram meu título para O Homem que Freou o Deserto. Adorei. Para finalizar, comi pão, bolo, bolachas. Quem tinha feito? Um grupo de adolescentes que se dedica à padaria.

Isto aconteceu na 19.ª Feira Pan-Amazônica do Livro, que este ano homenageou Ariano Suassuna e o Japão (há uma grande comunidade no Estado). Esta Feira, também Jornada, movimentou R$ 18 milhões em negócios, vendeu um milhão de livros e levou 80 mil pessoas aos estandes, palestras, cursos. Este ano, em meio à crise, o Pará viu a verba diminuída, parte dos colaboradores foram cortados, os que ficaram trabalharam triplicado, sem reclamar. E a Feira aconteceu. “Não se despreza 20 anos de tradição. Fizemos na força, na raça, na determinação e paixão, no sonho e pegando no pesado”, garantiram Paulo Chaves Fernandes, secretário de Cultura, Andressa Malcher, coordenadora, Madeleine Maklouf, Ana Catarina de Britto e Ana Luiza Barata, da Comissão Executiva. Ao mesmo tempo e tristemente, no lado oposto do País, a reitoria da Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul destituiu Tania Rösing da coordenação das Jornadas e cancelou um evento que existe (ou existia, ainda não se sabe) há 34 anos.

Belém, haja fôlego! Mais de 80 escritores, poetas, críticos, cineastas, ensaístas, teatrólogos, blogueiros, sociólogos, músicos, participaram de 120 eventos, incluindo palestras, exibição de filmes japoneses, conferências, debates, shows, aulas, moda, fotografia, fóruns, oficinas, teatro, internet, blogs, novas mídias. O que se possa pensar, aconteceu. “Este é um país chamado Pará”, escreveu o poeta paraense Ruy Barata. O orgulho gerou o desafio, trouxe a energia, a Pan-Amazônica flutuou de vento em popa. Como flutuaram e se libertaram em seu imaginário os meninos de Benevides.

P.S. gastronômico: Impossível ir a Belém e não falar de comidas, principalmente peixes. Há restaurantes como o Remanso, o Mangal, o Boteco das 11 janelas e outros, mas, se o tempo apertar, vocês podem resolver tudo indo à Estação das Docas, direto no Lá em Casa, criado por Anna Maria Martins e seu filho Paulo (ele faleceu em 2010). A cozinha dos Martins é a maior referência em comida paraense, segundo Alex Atala. Comi ali um caranguejo refogado que me deixou descansado; um picadinho de tambaqui sobre colchão de banana-da-terra, que me elevou; depois um silveirinha de camarão, que me fez levitar. Tudo em dias diferentes, claro, olhando o rio Guamá. Sem esquecer o pirarucu fresco com redução de tucupi e o doce de cupuaçu com queijo da ilha de Marajó.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.