Tem necessidade?

Escrever dá trabalho. Mas se alguém tem que sofrer, que não seja o leitor...

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2017 | 03h00

“Se você não consegue expor sua ideia no verso do cartão de visitas, é porque não tem uma ideia clara”, disse o dramaturgo, diretor e produtor de teatro americano David Belasco, numa frase que acabaria se tornando mais famosa que o autor. O alerta soa uma vez mais em meus ouvidos neste momento em que me proponho ocupar o espaço que me cabe nesta página, muitíssimo mais vasto do que o verso do maior dos cartões de visita, para falar, veja você o paradoxo, de concisão. Para adaptar palavras de alguém (prepare-se, pois estou num desses dias em que acordo disparando aspas), se não me engano Blaise Pascal, aquele que se reconhecia como um caniço, ainda que pensante: será que terei tempo para ser breve?

O paradoxo é ainda mais constrangedor quando me lembro (sim, a memória não se me esmaeceu de todo) de que na semana passada o assunto era exatamente esse, a concisão. Se você leu aquelas linhas dificilmente inesquecíveis, talvez também se lembre: um papo sobre não deixar na tela ou no papel nada além do essencial, graças ao expediente de soltar no texto uns cupins metafísicos que se alimentam apenas de madeira ruim, num processo após o qual, às vezes, felizmente nada sobra.

A conversa começou quando o confrade Luiz Egypto, de quem faltou registrar o nome, quis saber se foi mesmo Carlos Drummond de Andrade quem disse que escrever é cortar. Não, disse o poeta a Armando Nogueira. Então quem seria?, perguntou Armando a Otto Lara Resende, e Otto, provavelmente coçando a privilegiada cabeça, só por fora desguarnecida, levantou uma lebre, lebre mexicana que naquele momento seus requisitados neurônios não lograram identificar.

Menos dotado do que o grande Otto Lara Resende, mas dispondo talvez de mais ócio para tal tipo de investigação, fui farejar no papelório – e de lá saltou uma joia irredutível de Juan Rulfo, não por acaso autor de dois livros, Pedro Páramo e El Llano en Llamas, nos quais não há como limar uma palavra, uma vírgula, um só daqueles arrevesados pontos de exclamação e interrogação do idioma espanhol: “Escribir es cortar”.

Assunto encerrado? Que nada. Tendo ouvido falar de texto conciso, houve quem entendesse estilo telegráfico, no qual, sabemos todos, não há lugar para a indispensável porosidade da boa prosa. Ou quem, na direção oposta, argumentasse: e a prosa barroca de Guimarães Rosa ou de Lezama Lima? Como se ali houvesse banha verbal, rebati, e não exclusivamente aquilo que lá precisa estar. Que nem um santo do Aleijadinho, onde a menor dobra de pano justifica presença. Como, com outras palavras que não aquelas, nem mais, nem menos, pôr de pé a catedral de Grande Sertão: Veredas, sem que ela resulte reduzida à saga de um jagunço travesti?

Mas quem sou eu para palpitar nessas culminâncias da arte de escrever? Aqui na planície do jornalismo e da prosa miúda já não é pequeno o trabalho de limpar um texto do que sejam escamas. Muitas vezes escrevemos pelos cotovelos, e haja cupim para tanta madeira de baixa extração. Cortar é penoso, sobretudo para o próprio autor, por lhe faltar o necessário distanciamento – mas pior ainda, posso asseverar, é ter que acrescentar palavras para encher espaço. Qual redator de jornal ou revista não conhece o pesadelo de praticar a inglória cirurgia de lipoinspiração, botando banha em vez de aspirá-la? 

Se não me tornei um bom lipoaspirador, de coisa minha ou coisa alheia, não terá sido por falta de um mestre, o poeta Libério Neves, que tive a sorte de encontrar, pouco mais velho do que eu, nos anos de formação – e cuja poesia forte e desataviada, da qual a editora da UFMG tirou uma antologia, Papel Passado, não me canso de revisitar. Aos 21 anos, mostrei ao Libério um conto recém-escrito, no qual havia uma frase assim: “No confessionário, não tinha coragem de perguntar ao padre”. Tem coisa sobrando aí, alertou o poeta, para surpresa de quem julgava ter alcançado a síntese das sínteses. Passe a faca nesse “ao padre”, receitou ele, pois a quem mais se poderia perguntar alguma coisa num confessionário?

Na verdade, bastaria ter-me valido desde o início, também na empreitada de escrever, do que a propósito de tantas outras coisas me dizia a minha mãe, conservadora porém sábia: “Tem necessidade?”, indagava a dona Wanda diante do que lhe parecesse demasia, fosse o uso de palavreado chulo, a camisa chamativa de um filho, ou, nas moças em geral, algum decote por demais panorâmico para as não menos montanhosas porém recatadas Minas de décadas atrás. 

Ausente há quase 20 anos, a dona Wanda talvez gostasse de saber que um dos filhos, mesmo se eventualmente embalado em camisas clamorosas, costuma perguntar-se, ante cada palavra ou sinal posto num texto: tem necessidade? (Se lesse agora sobre meus ombros, ela talvez recomendasse mais rigor no inquérito...). A dona Wanda não chegaria a invocar Dorothy Parker – “Odeio escrever, gosto é de ter escrito” –, mas imagino que ralhasse sempre que o moleque (neste momento, por exemplo) alegasse cansaço para deixar como está: dá trabalho sim, diria ela – mas se alguém tem que sofrer, que não seja o leitor!

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