Telles Ribeiro lança novo livro de contos

Um diplomata descobre, ao ver uma mulher balançar-se nua na altura de sua janela, ter comprado uma casa ao lado de um hospício. Em outro conto, um aborígine, neto de um canibal, imagina qual deve ser o sabor da carne de um enviado da ONU a quem deve servir como motorista durante visita a seu miserável país. Situações insólitas como essas, que renderiam histórias sensacionalistas em mãos mais abusadas, são contadas de forma natural, sem a mera exibição de virtuosismo, simples até, por Edgard Telles Ribeiro em No Coração da Floresta (Record, 236 páginas, R$ 22,00), seu novo livro de contos."Releio e refaço muito meus escritos, buscando a leveza necessária de um bom texto", explica o autor. De fato, o estilo de Ribeiro é limpo e discreto. Ele reveste o material altamente inflamável que escolheu com uma aparência corriqueira. Em alguns casos, quando subverte a ordem (como na história do espião que acaba fugindo com o urso do circo), o autor nos obriga a obedecer a um dos comandos do texto e a prestar muita atenção.Telles Ribeiro é o embaixador brasileiro na Nova Zelândia, desde 1997. Antes, já servira em Los Angeles, Nova York, Quito e Guatemala. A variedade de cenários, provocada pelas constantes viagens na carreira diplomática, serviu-lhe como fonte de inspiração. "Quando procurei uma casa para morar na Nova Zelândia, visitei uma que me passou uma estranha sensação logo que entrei; descobri depois que estava localizada ao lado de um asilo, o que serviu como material para um dos contos", explica.As impressões mais fortes, porém, vieram durante a infância e adolescência - brasileiro nascido no Chile, no pós-guerra, filho de diplomata, Telles Ribeiro viveu entre a Suíça, França, Grécia, Turquia e o Brasil."Conheci esses países, especialmente os europeus, ainda vivendo a pobreza provocada pela guerra; era uma realidade muito diferente da sofisticação atual", compara. "Essas imagens ficaram gravadas e participaram da minha educação."Cinema - A literatura sofreu ainda outra influência - durante a década de 70, produziu e dirigiu alguns curtas-metragens para o cinema. Um deles, Vietnã - Viagem no Tempo, um documentário sobre um paraense que lutou como os americanos no Vietnã e depois emigrou para a Califórnia, foi exibido na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes, em 1980. Ministrou ainda cursos de técnica de roteiro na Universidade de Brasília."O cinema é uma inspiração decisiva para mim; em alguns contos, primeiro vejo as imagens, depois começo a redação", conta. "Quando publiquei meu primeiro livro, O Criado-Mudo (Brasiliense, 1990), alguns leitores disseram que certas cenas lembravam Renoir e René Clair; na verdade, a abordagem do personagem principal, feita por meio de flash-backs, tem muito em comum com a estrutura de Cidadão Kane, de Orson Welles."Em No Coração da Floresta, Telles Ribeiro constrói contos com uma visão de cineasta. Alguns, como Albatroz, que abre o livro, fornecem uma riqueza de detalhes que as imagens se sucedem naturalmente. "Eu me preocupo também com as nuances, os não-ditos, aqueles mistérios que permanecem indecifráveis e que permitem ao leitor construir seu próprio desfecho."Telles Ribeiro organizou os contos com uma estrutura de sonata. Na primeira parte, as histórias caracterizam-se pela sucessão de atos, muitas vezes culminando com a violência. Na segunda, os personagens revelam-se mais introspectivos, buscando significados para assuntos tão distintos como vida e morte. Finalmente, na terceira parte, os textos primam pela leveza e até um humor e ironia que ainda não haviam sido exibidos com tal agudeza.Ao escrever, Telles Ribeiro lembra-se sempre do conselho recebido de Antônio Houaiss, no início de carreira: "Não se esqueça das fronteiras da ambigüidade". O escritor prova que segue a conduta à risca - quando a ficção é humilde, quando não pretende apenas o sublime e tece os fios de nosso cotidiano, ela transforma singularmente a paisagem de nossa vida: ela valoriza o nosso espaço. Eis a meta do trabalho de Edgard Telles Ribeiro.

Agencia Estado,

21 de julho de 2000 | 16h39

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