Televisão feita com olhar de cinema

Além de João Jardim, outros nomes do cinema foram chamados a dirigir programas sobre fé e paternidade

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2012 | 03h08

Do superpremiado Janela da Alma a Lixo Extraordinário, que chegou ao Oscar, passando pelo programa da TV Globo Por Toda a Minha Vida, sobre grandes nomes da música brasileira, João Jardim não perdeu o tempo da delicadeza. Em cinco episódios de 30 minutos, Novas Famílias sucede a sua primeira ficção, Amor?, uma investigação da relação entre paixão e violência.

O programa não se pretende cor-de-rosa bebê. Tem choro de criança, clichê, implicâncias. Tem cenas comoventes, que passam despercebidas no dia a dia de quem as vive: depois da festa de um ano de Mia e Gael, a mãe Paula acaricia suavemente, quase sem se dar conta do gesto, o antebraço da mãe Mariana. O bem-humorado Fernando, de 66 anos, lembra que o filho não perdoa quando pensam que se trata de seu avô: "Ele é meu pai!!!!"

O pai Flávio diz com sinceridade que a cônjuges "com bagagem" não cabe só a conquista do parceiro, mas da prole - e o bom entrosamento entre os filhos pode ser determinante na decisão de se manter o relacionamento. "Foi muito estranho no começo, ninguém falava com ninguém", conta um de seus enteados, pré-adolescente.

Precedidas de meses de pesquisa do tema e dos personagens, as filmagens foram no Rio e em São Paulo. A equipe ficou, em média, três dias em cada casa. Não há maquiagem nem luz de cinema.

Não há informações sobre sobrenomes, profissões, contas bancárias, idades. Não importa saber que Flávio é bem-sucedido e que a mãe de quatro filhos de três pais é a atriz Teresa Seiblitz - afinal, "família eh, família ah, almoça junta todo dia, nunca perde essa mania..." (a óbvia música dos Titãs é a da abertura).

Além de João, o GNT chamou outros dois nomes do cinema para incrementar sua programação: Joana Mariani, assistente de Heitor Dhalia em À Deriva e O Cheiro do Ralo, e Susanna Lira, dos documentários As Positivas, cujos personagens são mulheres com aids, e Nada Sobre Meu Pai, sobre a ausência paterna. Dele se deriva o programa Dia de Pais, que deve ir ao ar em agosto, mostrando pessoas que jamais experimentaram o vínculo paterno.

Ainda não foi filmado, assim como Marias, pensado para outubro. Será um retrato das diferentes Virgens Marias presentes no imaginário de brasileiros, mexicanos, cubanos, peruanos e nicaraguenses, e de mulheres que ganharam esse nome por conta da devoção dos pais.

"O fato de esses diretores caminharem na avenida do documentário faz com que eles tragam um olhar profundo, detalhista. A TV precisa disso", diz a diretora-geral do GNT, Daniela Mignani. "No documentário, as coisas têm um tempo para acontecer; na TV, a tendência é à superficialidade ", avalia João.

No caso de Novas Famílias, como ainda há quem estranhe pais gays ou casais com grande diferença de idade, o canal se cercou de cuidados, para evitar julgamentos. Até por isso a série não tem apresentador.

A presença de documentaristas rende bons momentos à TV. O maior deles, Eduardo Coutinho, passou nove anos no Globo Repórter, sempre rodando em 16 milímetros, e logo que se desligou, em 1984, retomou o antigo projeto de Cabra Marcado para Morrer, que viraria marco de sua cinematografia.

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