Televisão e telejornalismo nasceram juntos

O Brasil foi privilegiado em encontrar profissionais, vindos em sua maioria dos noticiários radiofônicos, com muita vontade de encarar os desafios da maior novidade de 1950: a televisão. Assim que a tevê foi trazida para o Brasil, por Assis Chateaubriand, em 18 de setembro desse mesmo ano, foi inaugurada a TV-Tupi Difusora de São Paulo, a primeira emissora do Brasil. No dia seguinte foi ao ar o primeiro telejornal brasileiro: Imagens do Dia, que permaneceu quase três anos.Em 1º de abril de 1952 foi transmitida a primeira edição do famoso Repórter Esso, sucesso absoluto. Com uma expressiva sonoplastia, o apresentador anunciava "Aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da história". Esta frase ficou consagrada na voz do gaúcho Heron Domingues, um dos precursores deste noticiário. O Repórter Esso ficou no ar, diariamente, sempre às 8 da noite, até final de 1970.Dentro da história do telejornalismo brasileiro, o Jornal Nacional, da Rede Globo e líder de audiência há 30 anos, pode ser considerado um ícone. Na época, o então diretor da Central Globo de Jornalismo, Armando Nogueira, foi um dos idealizadores do noticiário. Inovador, ele criou, por exemplo, o desfecho com um simples "boa noite", deixando no ar a esperança e boas expectativas para o próximo dia. Hoje o cumprimento - pronunciado pelo casal William Bonner e Fátima Bernardes - é considerado uma das principais "marcas" do Jornal Nacional.Outra descoberta de Armando foi Alice-Maria Tavares Reininger, ex-diretora executiva da Central Globo de Jornalismo. Atualmente ela exerce a função de diretora editorial de entretenimento da emissora carioca, mas já foi a primeira telejornalista do Brasil. Sob sua coordenação está também o projeto TV Ano 50, da Rede Globo.Experiência - Quem também passou pelo Jornal Nacional, como editor-chefe, foi o jornalista Fábio Perez, que relembra momentos dos seus 40 anos de experiência com telejornalismo. Ele também foi editor e apresentador do Hora da Notícia, da TV Cultura. "Montamos uma das melhores redações da época, com Gabriel Romero, Narciso Calibe, Marco Antonio Rocha, João Batista de Andrade, Nenércio Nogueira. Esse trabalho foi realmente muito bom", afirma.No final da década de 60, Fábio Perez assumiu a chefia de todos os jornais da Rede Globo e depois tornou-se editor chefe do Jornal Nacional, cargo que ocupou por seis anos. Traçando um parâmetro entre o início do telejornalismo e os tempos atuais, ele afirma que "não há como comparar, mas digo que a evolução tecnológica contribui para maior rapidez", analisa. "Quando comecei, o material era em branco e preto, com imagem e legenda. Depois veio o filme colorido que demandava mais tempo para a revelação. Colávamos, literalmente, cena por cena. Logo depois chegou a colagem eletrônica.... e assim os processos e técnicas foram evoluindo. Hoje estamos caminhando para a imagem digitalizada", conta.Diante de tantas novidades tecnológicas, Fábio diz que como em todos os ramos há resistências ao novo. "A tecnologia facilita e é bem-vinda. É fácil ir se adaptando. O que faz a diferença nesse processo é a velocidade".Uma evolução curiosa apontada por Fábio Perez foi o surgimento do teleprompter aparelho instalado na câmera que mostra o texto para o apresentador ler. "Antes não tínhamos o teleprompter. Funcionava assim: olhávamos para a câmera e ao mesmo tempo para a lauda (papel), a fim de conseguirmos ler toda a notícia. A experiência fez com que houvesse uma intimidade ´natural´ entre o apresentador e o público. Com o surgimento do teleprompter, os profissionais demoraram algum tempo para se acostumar. Na verdade, o aparelho permite que você entre com o olhar dentro da casa do telespectador. Tínhamos medo de ficar com cara de idiotas, artificiais, pois ninguém fala com uma outra pessoa sem se mexer. E no início ficávamos imóveis, só depois fomos nos adaptando".Alto Risco - Para Fábio, trabalhar com jornalismo, seja ele impresso, radiofônico ou televisivo, é uma mistura de alegria e frustração. "Quando noticiamos fatos importantes para a humanidade nos sentimos também satisfeitos. Particularmente são os detalhes internos que me fazem sentir realizado ou não, como uma imagem errada ou uma edição correta. Nossa profissão é um misto das duas coisas".Para ele, a tristeza chega mesmo quando morre algum companheiro de trabalho, principalmente aquele que encontra-se em plena atividade, como foram os casos de Luis Lobo Filho e Samuel Wienner Filho, que morreram em acidentes. "Nossa profissão é de alto risco. Vivemos a história do País e do mundo em um segundo".

Agencia Estado,

17 de setembro de 2000 | 19h24

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