Televisão é a arte do autor

Silvio de Abreu, Novelista defende TV como tábua de salvação para o cinema, tela onde o roteirista não tem o domínio da obra

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h09

Autor que já foi ator de cinema, Silvio de Abreu trocou uma tela por outra em 1967. E não se arrepende, mesmo enfrentado a Censura ontem e a Classificação Indicativa hoje.

Paulo Autran dizia que "o cinema é a arte do diretor, o teatro é a arte do ator e a televisão,...

..."do patrocinador". Mas ele falava isso porque metia o pau na televisão. Eu mudo para: "O teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão é a arte do escritor". O que eu escrevo ninguém vai mudar. Eles (diretores) não mudam porque não sabem o que vai acontecer amanhã, eu tenho a história na mão. Roteirista de cinema não tem poder sobre a obra. Ele faz o roteiro, passa para o diretor, o diretor muda como quer, depois fica xingando, põe o nome junto... Falam que não é possível fazer trabalho autoral na televisão. Besteira. Você pega uma novela minha e sabe que é minha. Da mesma maneira, reconhece uma novela do Aguinaldo Silva ou do Gilberto Braga. A gente tem uma marca autoral. Não é como no México, onde há uma tabela de coisas imutável: a mocinha tem que conhecer o mocinho no primeiro capítulo, que tem de acabar com beijo; a bandida é bandida, a mocinha é mocinha. Quem é escalado para mocinho é sempre mocinho e atriz que faz mocinha é sempre mocinha.

Ainda é muito recorrente essa acusação de que novela "é tudo igual" e inferior a cinema, não?

Esse preconceito contra novela no Brasil é engraçado. A gente atinge 40, 50 milhões de pessoas por dia. Desde 67, quando larguei o cinema pra fazer novela, falavam: "Você tá louco!" E o que sustenta a classe artística brasileira é a novela. O que fez o ressurgimento do cinema brasileiro em termos de público foi a televisão. Aliás, esse fenômeno aconteceu também nos Estados Unidos nos anos 50, quando diretores de televisão, tipo John Frankenheimer, Sidney Lumet, saíram da televisão e foram para o cinema e deram um realismo ao cinema americano que eles exercitavam na TV.

Quais as mudanças do País  em 30 anos que a nova Guerra do Sexos terá de assimilar?

O que muda mais é a relação homem-mulher. Há 30 anos, o homem estava numa posição privilegiada na sociedade e a mulher estava lutando. Hoje em dia a mulher é presidente da República, ela está muito mais acima.

Esse papel da Luana Piovani, a Vânia, meio feminista, muda?

Não, ela é a mulher moderna, que não quer casar, quer uma vida sexual livre. Esse personagem vai ficar mais forte porque naquele tempo eu tinha muito problema de censura. Eu ia a Brasília a cada 15 dias para negociar com a doutora Solange. Tinha um caso de adultério, e adultério em novela era proibido. Pra ter a liberação, não podia haver beijo entre os adúlteros.

E ainda tinha tanta interferência da Censura em 83?

O quê? Vereda Tropical (1984) foi proibida de estrear, tipo Roque Santeiro (em 1975). Fomos a Brasília na segunda-feira, às 7 horas da manhã, eu, o Carlos Lombardi, o Mário Lúcio Vaz e o Paulo Ubiratan. A doutora Solange estava de férias e tinha uma outra senhora, dona Egle. Passamos cena por cena. Naquela época, o capítulo ia pra lá sem sonorização, era muito corrido. E tinha uma cena em que a Lucélia Santos paria e aparecia de boca aberta. Mas eu disse que ali não havia berro, e sim a Ave-Maria, e comecei a cantar. Aí falaram: "Assim fica bonito". A Geórgia Gomide, que fazia uma coisa Sofia Loren, não podia sentar de perna aberta. E cortaram uma cena em que o Paulinho Guarnieri batia no braço, mostrando o muque. Eles achavam que ele estava "dando uma banana" e "banana" remetia aos militares. Eu disse: "Não, ele está batendo no muque, não é uma banana, volta o tape". Ficamos nessa discussão banana-muque-muque-banana, até que ganhei. Saímos de lá com a novela aprovada. Aí a dona Egle falou: "Sabe o que é, seu Silvio? O senhor fez uma novela, Guerra dos Sexos, tão bonita, com gente bonita, chique, rica. Agora vai fazer essa novela com gente pobre? Gente pobre é muito feia!" Juro por Deus.

Agora você faz o que quer.

Mais ou menos. Agora tem a classificação indicativa. Tem muita coisa que eu podia fazer que não posso fazer agora.

Como o quê?

Tudo, a classificação indicativa proíbe tudo. É pior que censura. Armas, não posso usar às 7 da noite. Como é que um personagem vai ameaçar o outro com um porrete na mão? Ninguém é assaltado com um lápis.

O quesito politicamente correto afeta o texto atual?

Muito. Tomo muito cuidado pra não ofender ninguém, as pessoas brigam muito nessa novela. Tem coisas e palavras que não posso usar. Veja que agora não pode nem falar macaco! Não sei se posso falar cigano, não se pode mais falar mentecapto, retardado, isso faz parte de uma mudança da sociedade.

Há referências à instabilidade econômica da época.

Quando fiz a novela, era difícil arrumar emprego, o pobre estava muito mal. Isso muda. A estratégia da Charlô, com a loja dela, era atingir a classe AB. Agora é a classe C que está consumindo mais. Essas coisas estão sendo modificadas.

Também não tinha celular e internet: todo mundo hoje pode ser facilmente encontrado.

Isso é uma dor de cabeça, tem que mudar muita coisa. E aquela coisa de escutar atrás da porta, ter carta escondida, nada mais disso funciona.

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