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Telefonistas

Outra novidade relativamente recente no mundo da telefonia é essa: momentinhos têm musiquinhas e até já houve casos de um momentinho durar por todo o ciclo dos 'Nibelungen' de Wagner

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2019 | 02h00

Uma importante evolução na história da telefonia, paralela ao avanço técnico, foi no linguajar das telefonistas. O “alô” varia de língua para língua – “olá”, “hello”, “pronto”, o enigmático “está lá” de Portugal, etc. – mas o que vem depois, ou o que a telefonista diz antes de dizer que quem você procura está em reunião, também vem se modificando com o tempo. Consagrou-se, por exemplo, o “quem gostaria?”. É uma abreviação da frase “Quem gostaria de falar com o Dr. Fulano se ele não estivesse em reunião?”, claro, mas, mesmo assim, é uma frase inquietante, como todas as frases incompletas. Você sabe que só precisa dizer o seu nome, mas fica com a impressão de que estão falando de outro. De alguém de quem você é apenas um porta-voz.

Você hesita. Ela repete:

– Quem gostaria, por favor?

– Ahn... ele.

– Quem é ele?

– Eu. “Ele” sou eu.

– E quem é o senhor?

– Eu sou o que gostaria.

– Seu nome, por favor.

– Por que não disse isso antes? Meu nome é...

Resolvida a questão de quem gostaria, passa-se para outra questão, mais difícil.

– De onde?

– Como?

– De onde?

– Bem... Daqui.

– Daqui onde, por favor?

– De onde eu estou falando!

Ela quer saber que empresa, que organização, que entidade privada ou pública, que interesses, que outra esfera de realidade além da sua insignificante pessoa física, está por trás da sua chamada. Não adianta tentar brincar, e dizer coisas como “Da barriga da mamãe”. Telefonistas não estão ali para brincadeiras. Telefonistas estão ali para saber quem gostaria, e de onde gostaria.

– De onde?

– É particular.

– Um momentinho, por favor.

Aí entra a musiquinha. Outra novidade relativamente recente no mundo da telefonia é essa: momentinhos têm musiquinhas. Como o momentinho raramente faz jus ao diminutivo, a musiquinha se prolonga e já houve casos de um momentinho durar por todo o ciclo dos Nibelungen de Wagner e mais um pouco de Djavan. Finalmente:

– O dr. Fulano está em reunião.

– Obrigado.

Você liga de novo. Identifica-se como quem gostaria e diz de onde.

– O senhor não acabou de telefonar? Eu disse que o dr. Fulano está em reunião.

– Eu sei, mas desta vez só quero ouvir a musiquinha.

*

Não se queixe. Se você conseguiu falar com uma secretária, é um dos afortunados do mundo.

As secretárias estão sendo substituídas por uma voz mecânica, que lhe dá instruções, não quer conversa e, por alguma razão, lhe odeia. “Se quiser falar com o dr. Fulano tecle 1 mas não adianta porque ele está em reunião. Relações públicas, tecle 2, Novos negócios, tecle 3. Propinas e delações, tecle...”

– Pare! Não é possível ter um contato humano com alguém nessa empresa?

“Contato humano, tecle 5.”

Você finalmente desiste e tenta ser simpático.

– Essa sua voz... Eu não conheço você de algum GPS?

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