Telefone sem fio

Explicaram que a árvore não sairia, era uma hipótese, mas o boato se espalhou...

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 02h00

Professores anunciaram que vão aderir à greve geral da sexta. A direção da escola não interferiu, reprimiu, ameaçou. Pediu apenas que bolassem um jeito de avisar as crianças. Que aproveitassem o momento para praticar uma experiência pedagógica, debatessem princípios da democracia, explicassem o que era uma greve, por que ficariam sem aula na sexta. 

Era uma pré-escola que eventualmente promovia discussões e exercícios baseados na realidade.

Os pais teriam que ser avisados, para se planejarem. Se bem que, em se tratando de greve geral, se acreditava que os pais, diante de um mercado repleto de opções, matricularam conscientemente seus filhos numa escola que, sabiam, costumava fazer exercícios baseados na realidade. Os pais não só adeririam à greve, como provavelmente já se planejaram.

Um (ou outro) pai (ou mãe), claro, se revoltaria. Acusaria a escola de aderir a um movimento conduzido por esquerdistas que querem transformar o Brasil numa outra Venezuela, que deveriam se mudar para Cuba, levar seus filhos a estudar (e passar fome) em escolas cubanas, em que sofreriam lavagem cerebral para se transformar em massa de manobra do comunismo internacional. 

Crianças que deveriam ler mais Mises e menos Marx.

Uma minoria se revoltou com a notícia de que a escola aderiria ao movimento de parar o País contra reformas que tirariam alguns direitos trabalhistas.

Um deles, que já se revoltara anteriormente, quando os alunos da escola, num exercício de cidadania, organizaram a simulação de uma votação à eleição municipal, em que, diferentemente do resultado oficial, ganhou o candidato da extrema-esquerda, seguido pelo candidato da esquerda, deixando em último o candidato considerado coxinha, o que de fato foi diplomado prefeito da cidade, sugeriu em e-mails enviados à direção, e ele sempre enviava e-mails à direção, que a escola abrisse as portas para todos os “pobres e negros do bairro” (assim mesmo ele escreveu), se quisesse de fato transformá-la numa comuna exemplar, e deixasse sem-teto, imigrantes sírios e haitianos se alimentarem com as crianças. 

E-mail que a direção, claro, não respondeu.

Os professores, a maioria jovens pesquisadores, estudantes de psicologia, pedagogia, fariam uma roda, como costumavam fazer rotineiramente, com as crianças de seu grupo. Uma delas teve a ideia: e se inventarmos que a direção da escola pretende tirar a árvore do meio do parque, que serve de lastro a balanços de tiras de pneus, em que as crianças brincam? 

Aquela árvore resiste há décadas. Testemunhou o crescimento de gerações. Homens e mulheres adultos, profissionais liberais que fizeram pré-escola naquela escola, e que matricularam seus filhos nela, lembram-se da árvore com carinho.

Diremos que a direção tiraria a árvore, e que todos, crianças e professores, se organizariam para protestar e demandar que a árvore continuasse onde sempre esteve.

O lamento foi geral. Crianças choraram. Perguntaram o que poderia ser feito para reverter e manter a árvore tão querida em seu lugar. O papo na roda foi direcionado para que se organizassem e protestassem. 

Então, foi-lhes explicado que, não, a árvore não sairia, era uma hipótese, e que esse era o sentido de movimentos sociais se unirem para protestar e demandar, que é o que fariam na sexta, eles e muitos profissionais, professores, diretores, pais, funcionários, porteiros, estudantes, trabalhadores.

Sexta-feira, enquanto manifestantes estavam em praças discutindo as reformas (os pais foram convidados), uma criança comentou em casa que tirariam a árvore. A mãe correu para o grupo de pais do WhatsApp e perguntou se era verdade o que foi dito pela filha. O que foi indagado em outras casas a outras crianças, no dia em que a cidade parou. Algumas negaram, afirmaram se tratar de um jogo. Mas o boato se espalhou.

Pais se indignaram. Por que tirariam a árvore?! Estudei naquela escola, aquela árvore faz parte do meu imaginário, foi importante para a minha educação, para aprender a respeitar a altura e a me segurar em cordas e balançar, e desenvolver domínios corporais, que ele pode, com a ação coordenada dos braços, me levar para cima, flutuar, para o alto, para o céu, e voltar, subir e voltar...

No sábado, a boataria migrou para outros grupos de pais de outras turmas. A revolta se instaurou. Não, não deixaremos arrancar a árvore, precisamos nos organizar, protestar. 

Iniciaram um abaixo-assinado online, uma petição. Outro pai montou uma pesquisa: quem era a favor ou contra tirar a árvore. Domingo, montaram gráficos coloridos com estatísticas para serem enviados à direção. 

Sugeriram entupir os e-mails da escola com protestos. Outros sugeriram abraçar a árvore nas primeiras horas da manhã de segunda. Outros achavam melhor não levar os filhos na segunda, como numa greve. 

Um pai jornalista ficou de mandar a história para os jornais: um crime ambiental ocorreria no coração do bairro. Até aí, grupos em outras redes sociais foram formados. Denúncias com fotos da árvore tão querida, publicados com textões, eram compartilhadas por ex-alunos. Usuários postavam fotos suas de criança com a árvore ao fundo.

Amanheceu. Segunda-feira, para a surpresa do porteiro, dos professores e na direção, nenhum aluno aparecia. Uma leve neblina pairava no bairro. A rede de computadores da tesouraria travou. Uma enxurrada de e-mails carregados com fotos derrubou o sistema.

Uma passeata surgiu na rua. Faixas travaram a entrada da escola. O trânsito foi desviado. Uma comissão de pais e ex-alunos trouxe uma equipe de TV, advogados, ambientalistas, o Ministério Público e um representante da subprefeitura. Entrou para negociar.

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