Telecine exibe clássico noir com roteiro de Chandler

Um domingo com Raymond Chandler. Nenhum fã de policiais poderia querer mais. É o que o canal pago Telecine Clássicos promete, com a exibição (amanhã, às 22 h, com reprise segunda às 11h30) de A Dália Azul, no festival de cinema noir que vai até o fim do mês. Handler (1888-1947) escreveu o roteiro do filme e só isso já vale uma espiada. Ele pegou o romance policial renovado por Dashiell Hammett e deu-lhe ares de boa literatura. O filme noir pegou a deixa e criou um cenário visual para tais histórias, baseado no claro-escuro, no tratamento adequado dos tempos mortos da ação para criar suspense, na tensão das relações entre os personagens. A Dália Azul, dirigido por George Marshall, em 1946, tendo no elenco Alan Ladd, Veronica Lake, William Bendix e Howard da Silva, é um dos seus grandes clássicos. O par central Alan Ladd-Veronica Lake, caiu no gosto do público mundial desde 1942 e sobreviveu por vários filmes. Veronica tinha 26 anos na época de A Dália Azul e estava no auge do estrelato. Em 1941 mudara seu nome de Constance Keane para o que lhe deu fama. No filme que o Telecine exibe, ela usa e abusa de sua imagem de vamp, construindo uma imagem de loira platinada fria e inatingível, que enlouquecia os homens com seu ar misterioso reforçado por uma grande mecha de cabelo que caía sobre um dos olhos, que ganhou o apelido de peek-a-boo. Além de explorar sua voz rouca. Na verdade, inicialmente ela foi escolhida para contracenar com Alan Ladd porque era a única atriz disponível suficientemente baixinha (tinha pouco mais que 1, 50 m) para a altura do astro (1, 62 m). Ladd foi considerado o rosto ideal para mudar a visão habitual do herói durão dos filmes, que pouco variava além dos modelos de George Raft e Edward G.Robinson, nenhum dos dois um padrão de beleza. Ladd tinha feições de bom moço, exibidas em muitos pequenos papéis (fez até uma ponta como repórter em Cidadão Kane). No filme, três veteranos da Marinha voltam aos Estados Unidos. Quando Johnny/Ladd é acusado de ter matado sua mulher traidora, investiga o crime para descobrir quem é o assassino. Além das aparências - O roteiro aparentemente simples, esconde uma história complicada. Raymond Chandler tinha assinado um contrato de três anos com a Paramount e recebeu uma missão impossível. Alan Ladd, então com 33 anos, o maior astro do estúdio, iria ser convocado pelo Exército dentro de três meses e era preciso fazer um filme a toque de caixa, a ser terminado em um mês, com ele. O produtor John Houseman foi almoçar com Chandler e este lhe contou que estava enrolado com uma história sobre veteranos de guerra que voltavam ao país. Houseman pediu para ler o que Chandler escrevera e gostou. A Paramount comprou as cem páginas dois dias depois e Chandler recebeu a tarefa de concluir o roteiro. No fim do mês, George Marshall terminara de filmar as páginas já escritas e o escritor produzira apenas 22 a mais. O problema era achar um final convincente. Havia muitos suspeitos, mas tudo era muito óbvio. Chandler até desistiu do projeto, abalado pela pressão providenciada por um diretor do estúdio que lhe oferecera US$ 5 mil de bônus se ele acabasse a história no prazo. Ladd iria para o Exército dali a 10 dias. Chandler voltou ao estúdio e fez sua proposta: se ficasse sóbrio, não conseguiria terminar, então deveria se manter bêbado para acabar o roteiro com toda a facilidade, desde que tivesse seis secretárias em três turnos para ditado e datilografia. Surpreendentemente, o estúdio aceitou e Chandler passou uma semana embriagado. Duas vezes por dia, um médico lhe dava injeções de gliscose. Ele trabalhava e bebia sem parar, dormindo de vez em quando.Um dia, Houseman encontrou Chandler deitado inconsciente no sofá e ao seu lado as páginas finais, com assassino e tudo, caprichosamente datilografadas ao lado, junto de uma garrafa de bourbon pela metade. Cumprira o trato. O filme terminou quatro dias antes do prazo. Alan Ladd foi para o Exército e a Paramount ganhou um monte de dinheiro. Soube-se mais tarde que Chandler, no começo de tudo, já tinha um assassino, que seria um dos veteranos, mas a Marinha vetou a solução, que denegriria a imagem dos militares que voltavam para casa. Numa carta de Chandler, ele diz: "O que o Ministério da Marinha fez foi mais ou menos me obrigar a mudar o assassino e fabricar um quem-foi-que matou de rotina. O êxito de A Dália Azul foi tanto que, quando aconteceu, na época, o assassinato de uma garota em Los Angeles, que tinha mania de usar roupas pretas, um jornalista esperto aproveitou o título do filme e batizou a vítima como a Dália Negra. O caso ganhou fama e até inspirou, recentemente, um livro do romancista Elmore Leonard com esse título, além de vários filmes.

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