Telecine exibe ciclo em homenagem a Gregory Peck

Quando O Matador, de Henry King, irrompeu nas telas, em 1950, muitos críticos saudaram o que para eles era a maioridade do western. Três anos depois, surgiu Os Brutos também Amam (Shane), de George Stevens, e a tendência pareceu consolidar-se. Eram westerns psicológicos, carregados de simbolismos. Só os críticos franceses não gostaram muito. Faroestes bons, para eles, eram os de Budd Boetticher e Anthony Mann, embora uns e outros se enganassem. Os de King e Stevens encerram tentativas inteligentes e até clássicas de interpretação e desmistificação da mitologia do gênero, os de Boetticher e Mann, por serem mais simples e diretos, não deixam de ser psicológicos. Boetticher mostra sempre o mocinho e o bandido como reversos um do outro, Mann introduz Freud e é o psicanalista do western em As Fúrias, por exemplo.Vale lembrar tudo isso, um pouco porque este ano comemora-se o centenário do western, mas principalmente porque começa hoje no Telecine Classic, da Net/Sky, um ciclo em homenagem a Gregory Peck. O primeiro filme é o faroeste O Matador e, na seqüência, sempre às 22 h, irão ao ar: Os Bravos Morrem de Pé, de Lewis Milestone; A Hora Final, de Stanley Kramer; O Sol É para Todos, de Robert Mulligan, que deu o Oscar ao ator; e A Princesa e o Plebeu, de William Wyler.Peck, que morreu em junho, aos 87 anos, foi um dos maiores astros de Hollywood, mas nos necrológios, mais até do que o ator, os críticos preferiram lembrar o cidadão, que sempre batalhou por causas políticas e comunitárias, lapidando, para si mesmo, uma irretocável imagem de liberal. Apoiou todas as boas causas, da ecológica às das minorias, e por seu papel como o advogado que dá uma lição de democracia aos filhos, defendendo negro acusado de estupro em O Sol É para Todos, foi considerado, pouco antes de morrer, numa votação realizada nos EUA, o maior de todos os heróis americanos.Em O Matador, Peck faz um pistoleiro que luta contra a própria fama. É a sua maior inimiga, que o obriga, a toda hora, a sacar da pistola para provar que ainda é o gatilho mais veloz do Oeste. Henry King tinha tanto prestígio que era chamado de diretor dos diretores em Hollywood. Seu filme é contemporâneo do neo-realismo. Mais do que um faroeste psicológico, King talvez tenha feito de O Matador um western (neo)realista.

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