Tédio, eu?

Isolamento dá muito trabalho. Estica lençol. Abre janelas e cortinas nos quartos, para bater aquele sol. Dentes escovados no capricho. Lavar pia milimetricamente. Arrumar remédios.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2020 | 03h00

O bate-estaca se tornou meu despertador. São pontuais. E não adianta adiar. Quando começa, meu dia começa. 

Com meu filho menor em casa, que madruga, ainda dá para dar umas ordens. Depois de entrar no quarto e anunciar “papai, o dia amanheceu”, e ele desde pequenininho é o primeiro a acordar, consigo enrolar dando tarefas, tipo “tome seu café, bunda espinhuda, deixei em cima da mesa”, “regue as plantas”, “alimente o peixe”, “brinque sozinho”, “fique na varanda olhando os passarinhos”.

Todo mundo em casa é bunda-algo. O mais velho, “bunda branca”. Eu sou “bunda velha”. O Tio Avê, “bunda careca”. Chico, um dos primos, “bunda cabeluda”. A mãe? Fica entre nós.

Primeiro, o modo ódio: “Quem começa um bate-estaca numa crise pandêmica dessas?!”. Depois, os detalhes. Quando o bate levanta, ele urra, como um leão sendo massacrado. Bate a estaca. Meu corpo parece levitar. Não sei se o prédio treme, se é o planeta, ou se espasmos de susto me suspendem. Volta o urro do leão à beira da morte. Volta o prego sendo enfincado implacavelmente na Terra. Para ela, é a ponta de uma agulha de acupuntura. Nem isso. Para o bairro, é o pesadelo da primavera.

Egípcios, gregos e romanos construíram monumentos magníficos. Duvido que tinham bate-estacas. Os maias e astecas, também não. A muralha da China foi construída sem bate-estacas. O Farol de Alexandria, idem. Mas qualquer construção de predinho merreca do Sumaré tem.

E quando a Prefeitura liberou obras em quadras que circundam estações de metrô, ele passou a fazer parte das nossas manhãs e tardes. Eu tinha vista para da zona sudoeste. Via a USP. A vista agora está tomada de prédios merrecas. O pôr do sol do solstício de inverno dançou. Logo logo, dança o de verão.

Já que a maldição me acordou, que me acorda desde os 14 anos, quando me mudei para São Paulo, cidade que muda zoneamentos, em todos os bairros, constroem-se, derrubam-se casas, tratores aterram, constroem-se, bate-estacas infernizam, e vistas são eliminadas, bora viver. 

Meus filhos viajaram. Isolamento dá muito trabalho. Estica lençol. Abre janelas e cortinas nos quartos, para bater aquele sol. Dentes escovados no capricho. Lavar pia milimetricamente. Arrumar remédios. Checar a validade. Jogar fora caixas de remédios vazias, pomadas vazias, bulas perdidas, fio-dental sem fio-dental. Limpar banheira, privada. Passar desinfetante em tudo. Checar cerdas da escova.

Preparar o café da manhã, com a obrigação determinada de ler dois jornais do dia ao menos. Na pandemia do vírus, precisa-se estar bem informado, especialmente contra a pandemia de informações, de medo, de pânico, de noia. 

Limpar cafeteira, checar validade do queijo, as frutas passadas, esvaziar potes com cereal velho, colocar novos. Tirar tudo o que tem na geladeira. Limpá-la. Checar a validade de tudo. Tirar a roupa lavada da máquina, pendurar. Lavar roupa. Pensar no almoço. Descongelar o que precisa ser descongelado para o almoço. Regar as plantas. Checar carunchos, folhas velhas, matos penetras. Lembrar de como cada vaso ou planta apareceu, ganho por quem. Olhar a vizinhança, cumprimentar alguns da janela, olhar maritacas. Refletir.

Arrumar panelas, checar as tampas de cada, talheres, jogar fora tranqueiras guardadas, como rolhas antigas, arames de pães, pratos trincados, copos rachados. Limpar a parte de dentro do micro-ondas. Lavar louça, chão da cozinha, mesa. Organizar tampas em seus respectivos potes. Tarefa demorada, que requer atenção.

Máscara, luvas, elevador, descer com o lixo, torcendo para o elevador não parar, reciclar, subir, tirar luvas, lavar bem as mãos, tirar máscara, colocar sacos de lixo novos nas lixeiras. Isso merece outro café. Refletir.

Limpar máquina de café, alimentar peixe, ligar computador. Refletir na varanda, tomando o café. Voltar ao computador. Checar e-mail 1, e-mail 2, responder, limpar checar rede social 1, 2, 3 e 4, curtir algumas fotos, compartilhar notícias, memes e fazer piadas.

Checar a lição online do filho 1 e 2. Checar informações no grupo de pais do filho 1 e 2. Checar videozinhos na caixa do filho 1 e 2. Informar a mãe, que está na chácara do vovô, no interior, em que a conexão é péssima, mas andam sem máscaras, comem coisas da horta, frutas das árvores, ovos das galinhas que ciscam entre eles, correm, capinam, do que é relevante. 

Trabalhar.

Trabalhar, trabalhar, pagar contas. Call 1, com o amigo deprimido na Holanda. Call 2, com a irmã. Call 3, para combinar a Live 1. Refletir. Ginástica. 

Quando estou com os filhos, descemos. “Ah, não, pai...” Bora, bora. Crocs, máscaras, todos pro pátio. Corre pra lá, corre pra cá, pega esta bola, olha a borboleta, segue a borboleta, quem vai mais rápido. Lava a mão. Banho. Almoço. Montar os pratos. Bora pra cozinha. Esquentar de um em um. Filho 1 põe a mesa, o 2 arruma a comida. Limpar a louça.

Sem eles, ginástica indoor. Meia hora de ferros, uma hora de ioga num aparelho que me deixa em pé. Banho demorado, com todos os cremes que a pele aguenta, afinal, não tem muito o que fazer.

Tarde. Examinar estoques. Compras online. Conta a pagar. Ler material do Curso 1. Depois, fazer Curso 1. Participar de Live 1 e 2. Postar em blog, Twitter, Insta, Face. Rever os sites de notícias. Fim de tarde, ler na cama. Tirar uma soneca.

Noite. Aplaudir os técnicos de saúde às 20h. Panelaço às 20h30. Abrir o vinho. Preparar jantar. Jantar. Fazer Curso 2, dar entrevistas, discutir projetos hibernados, escrever o novo romance. Alimentar o peixe, apagar as luzes, dente, vitaminas, ver série. Refletir. Tédio, eu? Não viu nada. Imagine com os bundas-algo pela casa.

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