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Teddy Cruz examina a ‘lógica da gambiarra’

'O futuro das cidades está menos nos prédios e monumentos arquitetônicos do que na reconfiguração'

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2013 | 08h55

Vivendo em San Diego, Estados Unidos, nos limites com Tijuana, no México (a fronteira de maior tráfego de pessoas no mundo), o arquiteto Teddy Cruz especializou-se em examinar a lógica social e política das habitações de emergência, lugares construídos ou rearranjados por imigrantes (legais e ilegais). Em 2008, suas observações em comunidades marginalizadas dos dois lados da fronteira o levaram a ser escolhido como o representante norte-americano na Bienal de Arquitetura de Veneza. Não são conclusões ordinárias as de Teddy Cruz.

“As melhores ideias urbanísticas hoje não vêm das cidades ricas, nem das metrópoles. Essas cidades têm obsessões por ícones arquitetônicos, pela glorificação da forma. Há uma ‘belezificação’ da arquitetura, particularmente nos Estados Unidos, que sequestra todos os outros temas”, disse Cruz, falando ao Estado por telefone essa semana. “O futuro das cidades está menos em prédios e monumentos arquitetônicos do que na reconfiguração.”

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Cidade mutante

Pela terceira vez no Brasil, Teddy Cruz (que é também professor na Universidade da Califórnia) fala no Ideas City neste sábado, das 10h às 11h, sobre o tema Canalizando a Resistência: A Raiva Como Capital Inexplorado (seu parceiro na conferência é Adam Greenfield).

Basicamente, Cruz crê que todo o crescimento urbano nos tempos atuais tem sido orientado por estratégias de consumo, “voltadas para consumidores em vez de para a produção cultural”. Nos “laboratórios” de imigração que ele tem examinado ao redor do mundo, Cruz vê uma “inteligência criativa” e estratégias de participação comunitária que estão contidas dentro da organização urbanística.

Ele produziu uma teoria que nasce da informalidade, mas não do desregramento. A observação das moradias de imigrantes e suas soluções únicas revela como surge uma interface harmoniosa entre as instituições e as comunidades, e orienta estratégias. “Hoje, a arquitetura das cidades foca mais no jeito que os edifícios parecem do que como atuam. O que minha experiência mostra é que é preciso saber primeiro o que o edifício pode fazer pela cidade”, afirma.

No caminho de um lado a outro de uma fronteira, no processo de reconstrução e adaptação, na adoção de soluções improvisadas, nasce um clareamento da questão da identidade, do pertencimento, acredita o pesquisador, que nasceu na Guatemala e é ele mesmo um imigrante em trânsito. Cada caso, entretanto, é um caso: as favelas podem ter origem na pobreza, na precariedade e na privação, mas condições de topografia, de economia, culturais: tudo pode distinguir uma da outra.

Teddy Cruz politiza a questão arquitetônica, mas não no sentido clássico. Diz o tempo todo que seu trabalho não trata de “romantizar a pobreza”. Segundo ele, a euforia pela arquitetura ativista “muitas vezes, conscientemente ou não, esconde atuações totalitárias e colonialistas, as mesmas que buscam derrubar”. Elogia as soluções urbanísticas adotadas nos anos 1970 e 1980 por Jaime Lerner em Curitiba, no Paraná, e acha São Paulo “maravilhosa” por conta de sua “densidade cultural”.

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