Tecnologia e fé na Califórnia

Meu filho Lucas, o primogênito, descolou uma passagem aérea de milhagem com a tia, e vai visitar meu pai e minha mãe na Califórnia.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Se você lê estas mal traçadas com alguma frequência, já conhece a figura do meu pai. É um personagem recorrente aqui na crônica. Para quem é menos assíduo, basta dizer que o velho Garry é um entusiasta amador de novas tecnologias. Grava no seu computador Macintosh, durante o dia, podcasts, breves apresentações radiofônicas dedicadas às questões de informática, através da internet, para ouvir, na cama, antes de dormir, à noite, no seu iPod. Seu programa favorito, gravado religiosamente, passa ao vivo na Austrália.

Garry é adepto também do Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon. Faz um bom tempo, aliás. Realiza sua caminhada diária com ele, correndo o risco de cair num buraco em troca do prazer de ler em movimento. No momento, passa por uma crise existencial. Com o lançamento do iPad, o mais novo e bem estiloso aparelho portátil da Apple, que carrega livros, e também revistas, vídeos e filmes e, basicamente, só falta falar, ele se encontra diante de um dilema. Abandona o Kindle? Adere à onda do iPad?

Para muitos, esse não seria um problema grande, nada que US$ 400 não resolva (o preço do iPad nos Estados Unidos). Mas é que você não conhece meu pai. Ele dedicou os últimos anos a alardear as qualidades do Kindle. Sua tela é própria para leitura de textos longos. Deve ter arquivado no aparelho centenas de livros, adquiridos ao preço de US$ 10 cada um. O Kindle faz parte da sua identidade. Abandoná-lo, de repente, seria um ato de traição. Colocaria em questão, pelo menos na sua cabeça, sua seriedade, poderia ser taxado de volúvel. Ele tem, afinal, 75 anos.

Você poderia sugerir que ele utilizasse os dois aparelhos, o Kindle para livros e o iPad para revistas, filmes e pizzas entregues em domicílio. Parece uma solução sensata. Mas não existe essa possibilidade para meu pai. Há algo de religioso na sua relação com a tecnologia. Ou se é Kindle, ou iPad. É uma aposta no futuro, da mesma forma que a escolha de uma fé é uma aposta no céu (meu pai, quando jovem, foi missionário, diga-se de passagem). Ele vai acabar comprando o iPad, mas ainda não sabe como contar para o Kindle.

Discutimos esse assunto, domingo, diante de uma lasanha em casa, próxima à Vila Madalena, em São Paulo. Falei para o Lucas: "Você sabe que seu avô vai querer que você compre um iPad. Ele só pensa nisso." Todos ali à mesa reconheceram a seriedade do meu pronunciamento. Minha mulher Luli lembrou da viagem em que ele insistia na necessidade dela de adquirir um disco rígido externo, para proteger seus arquivos de computador. Ela achava o gasto supérfluo. Meu pai insistia. Todos os dias no café da manhã repetia: "Seu disco rígido vai dar pau, é apenas uma questão de quando... Um externo com um terabyte de memória custa apenas cem dólares. Cem dólares! Um terabyte é mais memória do que havia em todos os Estados Unidos em 1995. Imagine! Cem dólares!" Se você não compra, ele fica deprimido.

Naquele ano, a grande questão do meu pai era memória. Luli, como direi?, bem, ela tem suas convicções próprias, também. Essa questão dominou a nossa viagem aos Estados Unidos. Saíamos para passear de automóvel e, na volta, meu pai perguntava: "E o disco externo?" Luli achava a insistência um pouco invasiva. Adora o sogro. Mas questiona a desenvoltura com que os americanos, de modo geral, lhe perguntam de suas compras e dos preços pagos. Ela queria saber por que um dos meus parentes não fora convidado para uma festa de família. Segundo ela, um assunto natural para qualquer brasileiro, fofoca, na falta de outra palavra. Mas esse tipo de assunto é proibido entre os gringos, "verbotene", segundo ela. Já a sua relação com o mercado era discutida a céu aberto por todos. No fim, fui até a loja e comprei eu o disco externo.

Na sua viagem, Lucas espera adquirir um computador laptop. PC, como se não bastasse. Não é nem da Apple. Precisa disso para seu trabalho. Guardou dinheiro. Seus recursos são limitados e as cotas alfandegárias brasileiras, mais ainda.

"Boa sorte", concluíram todos ali à mesa, domingo. O consenso lá em casa diz que ele vai voltar com um iPad da Apple.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.