Tecnologia, arte e os dilemas do digital

O Brasil está engatinhando no setor e ainda precisa discutir a padronização de qualidade para nova realidade

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2011 | 03h06

Dirigindo-se ao público de Paris quando da apresentação do seu novo filme, Hors Satan (Fora de Satã), o diretor Bruno Dumont avisou que seria preferível vê-lo numa cópia em 35 mm. Justificou de forma um tanto estranha: a velha película em 35 mm é algo que pertence ao mundo da química. Ora, o ser humano é bioquímico em sua composição orgânica. Assim, haveria uma sorte de "afinidade" insubstituível entre o cinema analógico de base química e seu destinatário, o espectador, bicho de arquitetura bioquímica. Os materiais de formação seriam compatíveis, o que não se dá no caso do digital.

Interessante é que o discurso se deu numa sessão em que Fora de Satã, captado em 35 mm no processo de filmagem, seria projetado digitalmente. O episódio é lembrado no texto de abertura da revista Cahiers Du Cinéma de novembro de 2011, que traz em sua capa o título Adieu 35 - La Révolution Numérique Est Terminé (Adeus 35 - A Revolução Analógica Acabou). E terminou no sentido de que chegamos ao fim de um inexorável processo de passagem do analógico ao digital, que começou mais ou menos em 1990 e agora tem seu desfecho.

A revista constata que, até agora, o espectador ainda pôde escolher se queria uma projeção digital ou em 35 mm nas salas disponíveis em sua cidade; a partir de 2012, isso será quase impossível, pelo menos na França, Paris em particular. A antiga projeção em película sobreviverá na Cinemateca Francesa e em algumas salas de arte. As outras todas já terão passado para a fronteira do formato digital.

É um pouco o que acontece por toda a parte, mas alguns países estão mais adiantados do que outros. O Brasil encontra-se na rabeira da corrida digital, ao lado de alguns países africanos, e enfrenta vários transtornos quando tem de se mover no âmbito do mundo digital.

Os atropelos sentidos pelos cinéfilos que seguem a Mostra de Cinema de São Paulo são testemunhos da confusão no setor. Cópias projetadas com janelas inadequadas, sessões canceladas porque o HD do filme "não rodava", ou a senha antipirataria não chegara, cópias cujas legendas eram impossíveis de acessar, filmes travados no meio da sessão, etc.: tudo isso se viu e a causa não era desleixo ou incúria da organização da Mostra. O que existia era descompasso entre a realidade do Brasil e a dos países que enviavam filmes - sempre em digital - para serem exibidos.

Para se ter ideia, a média mundial de digitalização das salas nos principais países do planeta é de 50%; no Brasil, esse número para em meros 14%. Isso quer dizer que 86% das 2.200 salas brasileiras ainda fazem projeção em 35 mm, embora os estudos prevejam para 2015 a extinção total do suporte.

Alguns cinéfilos até comemoram esse atraso, pois, é bom que se diga, o digital está longe de ser unanimidade. Espectadores mais exigentes queixam-se das imagens chapadas, sem textura ou profundidade, do cinza sem gradações, de problemas no som. O cineasta Carlos Reichenbach sempre gosta de lembrar que com o 35 mm o cinema havia chegado à sofisticação visual da pintura; o digital haveria um recuo nesse trabalho com texturas, volumes e cores.

Quando a música passou do vinil para o CD ouviram-se queixas semelhantes e, até hoje, alguns melômanos sustentam que o som digital seria liso, plano, sem o "corpo" do som analógico de um bolachão bem gravado, ouvido num aparelho de som de ponta, com uma agulha perfeita.

É discussão para um século inteiro e, como os discos de vinil acabaram voltando à moda, a pedido de colecionadores mais exigentes, pode-se pensar também na sobrevivência teórica do cinema em 35 mm, mesmo que seja apenas em guetos mantidos por devotos. O grosso, mesmo, vai todo para o cinema digital, e isso é inexorável.

O digital se impõe por vários motivos, o principal deles de ordem econômica. É muito mais barato para os distribuidores mandar aos cinemas um arquivo pela internet, ou um disco rígido contendo o filme, do que pagar pelo frete de centenas de cópias de 35 mm, no caso dos grandes lançamentos. Essas cópias, acomodadas em oito, dez latas pesavam dezenas de quilos, são difíceis de estocar e sofrem com a ação do tempo, embora, em boas condições, a cópia em 35 mm permita até umas mil exibições. Mas não há como comparar a praticidade entre um sistema e outro.

Além do mais, o digital não precisa ser o vilão dos cinéfilos de fino trato, dos apreciadores cordon bleu de filmes de arte, que ainda torcem o nariz para a matriz digital. Os próprios frequentadores da Mostra, atormentados pelas trapalhadas digitais, foram brindados com a inesquecível e impecável exibição digital de dois clássicos restaurados como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, e Taxi Driver, de Martin Scorsese. Falar mal dessas projeções seria exercício de pura impertinência.

A rigor, ninguém é contra o digital por questão ideológica, mas contra o "mau" digital. Assim, nesse ano em que a revolução digital terminou, foram vistos manifestos e petições, não contra o digital, mas contrários à qualidade apresentada. Uma petição dos críticos (http://www.gopetition.com/petition/31415.html) diz que o digital, que deveria democratizar o acesso ao cinema pelo custo mais barato, tem patrocinado um "verdadeiro massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até atores". Citam como exemplo a projeção de Ervas Daninhas, de Alain Resnais, no Festival do Rio, com a janela de projeção errada, o que produzia cortes laterais na imagem concebida pelo diretor francês.

Uma entidade de classe, a Associação Brasileira de Cinematografia, que congrega os fotógrafos de cinema do País, não deixou por menos. Soltou um contundente documento chamado Atitude Digital (http://www.abcine.org.br/artigos/?id=693&%2Fatitude-digital) no qual manifesta a preocupação com a forma "com que seu trabalho vem sendo apresentado ao público". O documento, assinado por profissionais como Lauro Escorel, Affonso Beato e Pedro Farkas, lembra que, a partir de 1999, a tecnologia DLP (Digital Light Processing) foi aprovada pela indústria cinematográfica norte-americana, estabelecendo resolução de no mínimo 2K (2 mil pontos por linha).

Seis anos depois, as sete grandes empresas formaram uma comissão, a DCI (Digital Cinema Iniciatives), estabelecendo um protocolo com "limites de qualidade tão altos quanto o filme 35 mm (ver em WWW.dcimovies.com). Acontece que, em nosso país, sob a alegação de que produção independente, principal beneficiária do barateamento da produção digital, não poderia bancar os custos das normas DCI, adotou-se uma espécie de padrão-Brasil. Um espécie de sistema-jaboticaba, "sensivelmente abaixo do padrão mundial para o cinema digital".

Luiz Gonzaga Assis de Luca, autor de A Hora do Cinema Digital (Imprensa Oficial, Coleção Aplauso, 2009) diz que o sistema DCI não é alternativa única. Ele é ótimo, mas caro. Qualquer opção terá de vir seguida de uma normatização adequada, o que não é o caso. Gonzaga adverte também que os produtores, muitas vezes movidos pela economia de recursos, nem sempre proporcionam aos cineastas tecnologia adequada na captação da imagem. Depois, não dá para consertar. O caso da defasagem tecnológica no Brasil é tão grave que o governo se sensibilizou para o problema. Manoel Rangel, presidente da Ancine (Agência Brasileira de Cinema), órgão ligado ao Ministério da Cultura, avisou que lançará um fundo para financiar a troca de equipamentos para 900 salas em 2012. Nada se diz sobre o padrão desse equipamento. Goste-se ou não do digital, ele chegou para ficar. A pergunta não é se virá ou não, mas que tipo de digital queremos.

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