Tecnobrega, produto de exportação

Críticos internacionais perguntam o que há de novo no Brasil, uma década depois que o funk carioca dominou pistas estrangeiras

O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2013 | 02h15

Uma olhada na agenda da Gang do Eletro resume a fase atual do tecnobrega. Em um mês, o grupo paraense liderado por Waldo Squash foi de apresentações no descolado festival South by Southwest, nos Estados Unidos, ao Show da Xuxa. Trata-se de um retrato da presença do gênero em cenas díspares: ao mesmo tempo em que chegou ao mainstream brasileiro nos últimos anos, com a ascensão da diva das aparelhagens Gaby Amarantos, se tornou produto de exportação vanguardista.

Críticos internacionais perguntam o que há de novo no Brasil, uma década depois que o funk carioca dominou pistas estrangeiras e foi absorvido por produtores renomados, como Diplo. A resposta mais simples é o tecnobrega.

A Gang do Eletro acaba de lançar seu primeiro álbum oficial, disponível pelo Soundcloud, e o interesse que o grupo desperta na Europa, com DJ sets em festivais de música eletrônica e, mais recentemente, um remix comissionado pelos Pet Shop Boys (para o single Memory of the Future, lançado este ano), o grupo mostra-se apto a protagonizar uma exportação. "A mesma coisa que aconteceu nos anos 2000 com o funk está acontecendo agora com o tecnobrega", afirma Waldo Squash, também produtor do grupo, por telefone, a caminho do Projac. "Todo tipo de música de gueto sofre preconceito antes de ser aceita. O tecnobrega não está for a deste enquadramento. Passa pela mesma coisa que passou o samba, antigamente, e que passou o funk, nos anos 1990", explica.

A narrativa anda em conjunção com outros gêneros de música eletrônica de periferia, que se encaixam em um diálogo global de guettotech, que teve ascensão na última década. Entre eles, a cumbia argentina, o kuduro angolano, o footwork de Chicago e o reggaeton dominicano. Definidos pela estética de guerrilha, feitos com softwares pirateados na internet e mixagens caseiras, formam um encontro de música e sociologia atraente para escritores estrangeiros e interessados em cultura.

Waldo, entretanto, buscou lapidar o verniz de seu tecnobrega, e torná-lo mais competitivo. "É o que fizemos no novo disco. Ao longo dos anos, acumulamos muitas músicas jogadas na internet para fãs das aparelhagens. Pegamos as melhores, enriquecemos as bases, multiplicamos as letras", conta. As faixas de Gang do Eletro passam por hits da banda como Galera da Laje e Só No Charminho. Nota-se um aprimoramento na produção, o que, de acordo com Waldo é reflexo do sucesso, pois antigamente não tinha dinheiro para comprar softwares de boa qualidade. Mesmo assim, a jocosidade despretensiosa das batidas do tecnobrega, sua principal arma, é preservada. As influências mais óbvias vêm de palcos internacionais, com sintetizadores de trance e outros macetes da EDM, a popularesca música eletrônica que atualmente protagoniza o pop internacional.

"Estou tentando encontrar uma maneira de inserir o dubstep nas coisas que fazemos", conta Waldo, referindo-se ao subgênero de EDM, cujos graves agressivos estão em voga com a garotada (vide a música de Skrillex). "Mas não deu certo ainda", completa.

O comentário diz muito sobre a essência antropofágica dos gêneros de guettotech, vorazes aglutinadores de influências. "Eu não crio nada", diz Waldo. "Procuro inserir aquilo que ouço no som que crio até que vire uma coisa nova. Em Belém há muitos produtores criativos. Vou escutando, vou trocando, vou tirando", completa. / R.N.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.