TÉCNICA E SABOR NOS DETALHES DE BASTIDORES

Em Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, Stephen Rebello entrega o serviço completo que o título do seu livro promete. Serve ao leitor, em detalhes, as circunstâncias que cercaram a feitura desse que é um dos filmes mais famosos do velho Hitch.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h12

Fala da série de crimes que inspirou o romancista Roberto Bloch a escrever Psycho, das tentativas de roteiro, das dificuldades em convencer os estúdios a financiar história tão macabra, do trato (complicado) do cineasta com atores e atrizes, de peripécias da filmagem e proezas da montagem.

Fala de lendas e tenta desmistificá-las. Por exemplo, em torno da filmagem da cena mais célebre, a do assassinato de Marion (Janet Leigh) no chuveiro. Durante algum tempo, correu a lenda de que o designer de créditos, o genial Saul Bass, teria sido o responsável pela sequência. O próprio Bass andou alimentando a versão. Rebello ouve testemunhas da filmagem, protagonistas e assistentes e conclui: "Num filme de Hitchcock existe apenas um diretor: Alfred Hitchcock". E ponto.

Mas, é claro que, mesmo sendo autoral, um filme como Psicose, aliás como qualquer outro, depende da soma de iniciativas individuais que, orquestradas pelo diretor, redundam na obra final. Daí que quando a criança é bonita todos reivindiquem paternidade, sobretudo quando o egoico Hitchcock parece querer convencer a todos de que fez tudo sozinho. "Ele não era nada generoso na distribuição de créditos", admite Rebello. De modo que é provável a participação de Bass no desenho da cena, mas quem a dirigiu e concebeu, afinal, foi o próprio Hitchcock,

A cena teve feitura complexa e demorada. Gastou quase um terço do prazo previsto para a realização do filme inteiro. E provoca, ainda hoje, discussões sobre quem teria feito o quê. É trabalho de preciosismo e de ourivesaria. Hitch queria a cena silenciosa, mas foi convencido a incluir a trilha sonora de Bernard Hermann, incisivos acordes que parecem acompanhar os movimentos da faca.

Existiam outras complicações, como a recusa de Janet Leigh em aparecer nua. Uma dublê de corpo, Marli Renfro, foi convocada para "interpretar" partes que a protagonista não consentia mostrar. Entrevistada depois, Janet disse que, apesar de a dublê ter sido filmada repetidamente em cenas intermediárias, a montagem final usa apenas imagens do seu próprio corpo. Quem tem razão? O resultado, todos sabem, foi esplêndido; tornou-se uma sequência clássica da história do cinema.

Mesmo assim, com tanto perfeccionismo, houve problemas. Alma insistia que Marion, já morta, "piscava" o olho. Ninguém via. Mas se comprovou, na moviola, que a mulher de Hitchcock tinha razão e tiveram de refazer a parte. Mesmo assim, um oftalmologista botou defeito. Disse que o close do olho, no final, não era realista. "A pupila estava contraída", afirmou. "Se a pessoa estivesse morta, estaria dilatada. Bastaria uma gota de colírio adequado para resolver." Enfim, sempre existem os incontentáveis. Mas a imensa maioria do público se arrepiou. E gostou demais, segundo a tese de Hitchcock, jamais desmentida, de que as pessoas adoram sentir medo.

Hitchcock era craque do entretenimento e muito bem falante. Não lhe faltava humor. A um homem que lhe escreveu queixando-se de que a filha se recusava a entrar no chuveiro depois de ter visto o filme, respondeu: "Recomendo lavagem a seco".

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