Teclado universal

Chilly Gonzales fala sobre sua variada carreira, que vai de Daft Punk e Feist ao piano solo

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h09

"Sou um cara do pop, com ferramentas eruditas e um toque jazzístico", conta Chilly Gonzales, ao resumir o curioso nicho musical em que transita. Braço direito da cantora Feist, pianista de titãs como Iggy Pop, Drake e Daft Punk, e autor de dois ou três hits que projetaram uma respeitável carreira solo, Gonzales é uma espécie de faz tudo em extinção do pop contemporâneo. Ao centro de seu talento está o piano, instrumento cujos exímios praticantes costumam ser apenas citações nos encartes de discos, quando não são operários de anêmicos crossovers, como no caso de Jamie Cullum. Seus dotes para produção (é o timoneiro de todos os discos de Feist) e concepção pop (Never Stop, de 2010, tornou-se a trilha do lançamento do iPad), colocam o piano popular em um contexto moderno, distante do barzinho esfumaçado, às 3 da matina, em que estamos acostumados a imaginá-lo.

Gonzales lançou este mês seu segundo trabalho de piano solo. Em conversa, é interessante notar quão bem-resolvida é sua relação com o instrumento, no contexto de uma carreira que flutua sutilmente entre diferentes mundos e épocas: "A música pop venceu a grande batalha em torno de estruturas musicais no século 20. Não estou interessado em construções complexas, desenvolvimento de temas e etc. Por isso não sou um pianista erudito. Mas eu roubo harmonias eruditas, tal como um rapper rouba um sample. Também não acho que a improvisação jazzística cai bem no contexto sobre qual estamos falando. Gosto das nuances do toque, mas não sou de improvisar. O que realmente me interessa é a forma e a função da música pop: conseguir dizer uma ou duas coisas de maneira sucinta, e tão deliciosa que a canção se torna irresistível", explica. Um pianista popular como Richard Clayderman diria a mesma coisa. Mas na prática, Solo Piano 1 e 2 combina estas diretrizes com graça, formando pequenas peças semelhantes a temas de filme, mas enxutas como canções. As tonalidades são sempre menores - ou sérias e tristes -, o que faz parte de sua ética musical. "Paul McCartney já dizia: 'faça o verso em menor, mas o refrão em maior, para exprimir esperança", conta.

Ultimamente, quando não tem estado ocupado com suas próprias composições, Gonzales tem passado tempo no estúdio com o elogiado rapper Drake, e com o onipotente duo de música eletrônica, Daft Punk, que não lança um disco há sete anos. "E aí, como está o disco?", é a pergunta óbvia. "Não posso falar", responde Chilly, que tuitou que o duo deve lançar um álbum duplo no ano que vem. "Eu tentei revelar algumas coisas há duas semanas, mas o Twitter explodiu com os fãs do Daft Punk. Mas posso dizer que toquei piano para eles, no estúdio, por horas. Eles me diziam o que queriam, como diretores de um filme. Não sei como soará", diz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.