Teclado com notas musicais e palavras

JOÃO MARCOS FILHOUma tribo do Amazonas descobre e "liberta" o Mediterrâneo para, em seguida, convertê-lo impiedosamente a outros credos. Realiza o seu trabalho com o mesmo ímpeto e falta de respeito pelos aborígines demonstrados pelos conquistadores do passado, que fizeram a rota inversa, da Europa para as Américas. Um judeu de avós alemães e russos nascido em Buenos Aires descobre a Europa, mais precisamente a Alemanha - e de lá conquista um espaço original na criação musical do século 20, a do teatro instrumental. Transforma-se num dos criadores chaves da música contemporânea, num processo que se pode qualificar como antropofágico.

JOÃO MARCOS COELHO, JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL), O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

A bem sacada inversão de papéis históricos e geográficos é operada por Mauricio Kagel (1931-2008) em uma de suas obras-primas, Mare Nostrum, de 1978. "Com certeza um europeu nunca ouviu falar de 'descobrimento' com tanta ênfase como nós, sul-americanos (…) O 12 de outubro - pomposamente celebrado na América do Sul como o 'Dia da Raça' (a interpretação exata seria: 'Dia da raça branca') - desperta a recordação de atos execráveis. O triunfo dos brancos sobre os não brancos, detalhadamente documentado no informe verídico de Frei Bartolomé de las Casas, foi um perfeito genocídio. História é amiúde a arte de interpretar subjetivamente os fatos sob o manto da objetividade." Modesto, Kagel chama a obra de "amável vingança".

O mesmo processo ocorreu também em sua trajetória pessoal e artística. A ponto de o compositor norte-americano John Cage, que bagunçou nos anos 50 o coreto até então uniforme dos frequentadores dos Seminários Internacionais de Darmstadt, fortaleza da vanguarda do pós-guerra, ter dito que "o melhor músico europeu é argentino e se chama Mauricio Kagel".

Kagel jamais teve livro publicado em espanhol, sua língua original. Adotou o alemão como língua preferencial, na qual lançou obras de ensaios/entrevistas. Palimpsestos, o primeiro livro em espanhol que leva seu nome como autor, acaba de ser lançado na Argentina. Segundo Pablo Gianera, que assina o prólogo, "a circulação de suas palavras cumpre assim em sua língua materna o mesmo destino de sua música: primeiro nos grandes centros musicais europeus, depois na periferia sul-americana".

Europeu ou argentino? Alemão ou portenho? Ele foi para Colônia com bolsa do governo alemão em 1957. E só retornou a seu país praticamente meio século depois, em 2006. Na década de 80, adquiriu a cidadania alemã. "Adquiri é a palavra certa", respondeu em entrevista de 1990, "porque para obtê-la tive de devolver o dinheiro da bolsa que recebi do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico 33 anos atrás." Reservou igual sarcasmo em sua derradeira visita à Argentina, em 2006: "Em Buenos Aires a música é essencial. É um substituto para tudo aquilo que não funciona aqui: a política, a sociedade…"

Em vários momentos do livro, em ensaios ou entrevistas, ele ora pende para a Europa, ora para a Argentina natal. À pergunta "você é um compositor alemão?", responde: "Sou um compositor que, segundo o estado de alma, conhecimento, simpatia ou simplesmente o poder de imputação de quem escreve, é rotulado de sul-americano, argentino, argentino alemão, alemão, oriundo de Colônia, oriundo de Colônia por escolha, ou pura e simplesmente judeu."

Comemora ter nascido na Argentina, porque o "liberou dos pensamentos hegemônicos". "Quando cheguei à Europa, um dos choques foi me dar conta até que ponto os europeus são provincianos. Estavam fechados em sua tradição: o alemão que não conhece Debussy, o francês que não conhece Schoenberg." Na vida musical convencional, alfineta, "a meta é sempre a mesma: chegar à maior quantidade de ouvintes com a menor quantidade de peças". Perverso e frequente axioma.

Exilado voluntário. O Palimpsestos do título refere-se à sua primeira composição, de 1950, uma peça coral a capela sobre versos do poema Poeta en Nueva York, de Federico García Lorca. "A ideia surgiu quando li as nove variantes do poema em apêndice no fim do livro. Até ali, não sabia que os poetas também publicavam versões divergentes. O que fiz foi superpor as versões, para depois deixá-las a descoberto, como um arqueólogo, camada por camada, mas de modo incompleto."

O ex-aluno de Borges no Colegio de Estudos Superiores de Buenos Aires, filho de tipógrafo, adorava literatura. Conheceu bem Julio Cortázar, jogava xadrez e era amigo do escritor polonês Witold Gombrowicz. Participou da Agrupación Nueva Musica de Juan Carlos Paz, ajudou a fundar a Cinemateca Argentina, foi dublê de crítico de cinema e música. Mas jamais frequentou escola regular de música.

Nos anos 50, encantou-se com a música concreta de Pierre Schaeffer. E compôs Música para a Torre em 1954, o primeiro exemplo de música concreta na América Latina. Em seguida, mostrou suas composições para Pierre Boulez em Buenos Aires. Este lhe sugeriu mudar-se para a Europa, o que fez em 1957.

Kagel soube enxergar no compositor John Cage o arauto de uma nova era na música contemporânea em 1958, quando o americano visitou os cursos de Darmstadt. Compreendeu a ideia de que a música devia retornar ao teatro, do qual a vanguarda se afastou por muito tempo. "Não existe músico quimicamente puro", escreveu. E mergulhou no reino das "contaminações". Introduziu o teatro na música contemporânea, fez cinema - como o antológico Ludwig Van, de 1970, que pode ser visto em www.ubu.com. Levou para a criação musical as lições do cinema: "Os segredos da montagem são similares às fórmulas musicais." Deixou claro que seus filmes eram suas "óperas". Nos anos 60, Adorno reconheceu o fato quando escreveu que "a vanguarda atual aceitou novamente (a ópera), provavelmente da maneira mais convincente na figura de Kagel".

Criou dezenas de peças radiofônicas, gênero eminentemente alemão. Numa delas, O Tribuno, de 1978, bebe no país natal. "Como todo mundo nascido na Argentina e crescido na América do Sul, não me faltou oportunidade para aprender que as forças motrizes da prática política são de natureza mais erótica do que heroica. A voz e o aspecto dos responsáveis pelo bem-estar do povo (…) são tão decisivos quanto os argumentos."

Combativo, em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, compôs Oda Interrogadora, em que se repetiam as seguintes palavras: "Liberdade? Igualdade? Fraternidade? Quando?." Quatro anos antes, no artigo Duvidar de Deus, Crer em Bach, pôs a nu a perversa engrenagem da indústria das efemérides: "É cada vez mais frequente o calendário determinar os programas de concertos, como se o nascimento e a morte fossem imprescindíveis para nos enfrentarmos com o passado; a vingança da indústria cultural é implacável… e cíclica."

Kagel dinamitou a pretendida pureza e abstração nos cursos de Darmstadt no período em que os dirigiu ( fim da década de 60 e início da seguinte). Seu credo fica explícito nesta declaração: "A música e arte não se bastam a si mesmas quando rompem o sistema de coordenadas fundado no conhecimento e experiência do receptor, algo habitual quando se enfrenta o novo. Neste caso, surge a necessidade de se valer também das palavras. O erro do passado foi acreditar que a música, enquanto arte autônoma, não necessitava de um comentário a título de exemplo; uma ilusão que não correspondia aos fatos. Ambas, arte e música, não podem prescindir das palavras."

Portanto, era natural que sua criação se encaminhasse para uma fusão com pressupostos teatrais. Numa obra de 1988, ele recorre aos fatos noticiados em vários lugares no dia de seu nascimento. E intitulou-a … Em 24 de Dezembro de 1931 - Notícias Truncadas para Barítono e Instrumentos. Noutra, detecta em Debussy uma atitude criativa semelhante à sua: em Interview Avec D. - Para el Señor Croche y Orquestra, de 1993/94, usa textos das críticas musicais de Debussy, assinadas com o pseudônimo Monsieur Croche: "As investidas contra muitos dos compositores nem sempre eram justas, mas tinham topete e despertavam minha curiosidade por outros modos de ver e outras formas de estabelecer relações."

Assim, afastou-se da ortodoxia da vanguarda. Foi acusado de pós-moderno, decadente, etc. Nada disso. Ninguém foi mais atual do que ele, sobretudo nas últimas décadas de vida. Em 1996, compôs Eine Brise - Ação Fugitiva para 111 Ciclistas. A peça dura entre 60 e 90 segundos, o tempo que levam 111 músicos ciclistas para passar diante do público assobiando, cantando e apertando buzinas. Ela abriu o Festival Kagel, em 2006.

Na versão portenha, os 111 ciclistas passaram em frente do Teatro Colón. Vale reproduzir o texto de Kagel: "Uma vez que a música é capaz de mobilizar os que a amam, os participantes deste acontecimento pisam com força nos pedais para chegarem rapidamente a uma nova sala de concertos que lhes foi prometida. Mas as melhores poltronas para o concerto de abertura acabam de ser destinadas aos políticos da cidade, precisamente aqueles que travaram o projeto do novo teatro tantas vezes." Como Kagel gostava de repetir, todo sul-americano já viu este filme muitas vezes.

Acertadamente, preferia o termo teatro instrumental a teatro musical, "por causa da necessária diferenciação entre a ação cantada da ópera, de um lado, e a atuação dos instrumentistas de uma obra de música de câmara, de outro". A aguda obra para piano solo, que o brasileiro Paulo Guimarães Alvares gravou com excelência anos atrás, é ótimo exemplo desta atitude.

Em um de seus derradeiros depoimentos, Kagel diz que o compositor hoje deve surfar nos estilos. "Prefiro esta situação permissiva porque é mais rica." Como então ser original hoje?, pergunta Werner Klüppelholz. "O que continua surpreendendo os compositores jovens é descobrir que um número limitado de notas não é obstáculo à possibilidade de dar forma a um número ilimitado de combinações e linguagens musicais. Tudo o que se compõe está sempre em situação de tensão tanto com o passado como com o presente. Por precaução, deixo o futuro na sala de espera do horizonte, pois toda previsão sobre as obras do futuro - que na sequência se consagrarão ou não mais adiante - soa para mim como escapismo."

O título do livro

de Kagel (acima)

é tirado de sua

primeira peça,

inspirada num

poema de García

Lorca (1950)

'Liberdade? Igualdade?

Fraternidade? Quando?', repete ele em uma obra escrita após a queda do Muro de Berlim

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.