Teatros movimentam praça com fama de "perigosa"

A fama de "área perigosa" aindaronda a Praça Roosevelt, centro de São Paulo, principal ponto deunião entre as ruas Augusta e da Consolação. Nas noites dos finsde semana, no entanto, a movimentação de espectadores atraídospela programação dos quatro teatros situados na praça, na ruaparalela ao pequeno bosque lateral à Igreja da Consolação, vemmudando essa fama. Com programação variada, situam-se lado alado, na mesma calçada, Espaço dos Satyros, Studio 184, o TeatroRecriarte Bijou e Teatro X. Tal concentração de pequenos teatros, espécie de off off Bixiga, vem contribuindo para revitalizar apraça."Eu tinha medo desse local antes de vir pela primeiravez", diz o gaúcho Cleber Laguna, de 33 anos, acomodado numadas mesas do charmoso bar do Espaço dos Satyros, ao lado damulher, Márcia Fernandes, enquanto espera o início da peça DeProfundis, sobre Oscar Wilde, em cartaz no espaço. "Como nãosomos daqui, moramos há apenas quatro anos em São Paulo,assimilamos as lendas sobre a violência na cidade. Ano passado,lemos no jornal sobre uma montagem de Édipo e, atraídos pelobom texto, resolvemos arriscar. Foi uma surpresa. Rua iluminada,movimentada, ônibus e metrô próximos. Estamos vindo pelaterceira vez."Bem mais jovem, o casal de namorados Rafael Barcot e AnaRibeiro, ele estudante de Música, ela de Letras, respectivamentede 24 e 21 anos, estavam pela primeira vez na praça, comprandoingressos na bilheteria do Recriarte Bijou para a peça OCasamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna. Destavez, foi o autor da peça o estímulo para o jovem casalaventurar-se pelos perigos da noite paulistana. "Eu fui a umshow do Nóbrega e ele falou sobre o Movimento Armorial e sobreSuassuna. Quando vi, no jornal, que havia uma peça dele emcartaz, resolvi ver."Diante do Teatro Recriarte Bijou, Antônio Delfino dosSantos, de 64 anos, estacionou sua carrocinha de pipoca. Uma dasmuitas lendas do teatro envolve a figura do pipoqueiro. Dizem osartistas que se há um pipoqueiro na frente do teatro, é sinal deque há público. Dois, a peça é um sucesso. Três! Bom, aí dá atépara pensar em ganhar dinheiro. "É impressionante o faro dopipoqueiro para o sucesso de bilheteria", diz o experiente atorOswaldo Mendes. "Esse ponto já foi muito bom na época do cinema(Cine Arte Bijou), nos anos 70 e até 80", relembra seu Antônio."Depois ficou ruim. De uns tempos para cá, o movimento começoua melhorar novamente. Ainda não está como antes, masmelhorou."Seu Antônio não é o único negociante atento ao movimentodos teatros. Proprietário da loja Museu do Lar, situada na mesmacalçada, ao lado do Teatro X, Esdras Vassalo, de 69 anos, estáhá seis anos no local e já percebeu que os espectadores podemser também seus clientes. De incensos a móveis, de LPs a CDsnovos e usados, de cristais a livros, a loja vende um pouco detudo. "Quando percebemos a movimentação nos teatros, chegamos amanter as portas abertas até meia-noite. Mas constatamos que, aofim dos espetáculos, o público sai direto. A turma só entra naloja antes da peça, enquanto espera. A maioria olha, pega cartãoe vai embora. Mas tem sempre alguns que compram alguma coisa.Por isso, agora, nosso horário de funcionamento é de meio-dia às22 horas."Ao lado da loja do senhor Esdras, está a fachada doTeatro X, diante da qual um grupo aguarda para assistir à peçaEspólio, adaptação de Gerson Steves para a tragédia Antígone, de Sófocles. O grupo não alterou a interessante arquitetura do espaço situado no subsolo, onde já funcionou a famosa ebarulhenta boate Cais. Além da sala de espetáculos, o espaçoabriga um bar, onde o público pode aguardar o início doespetáculo.Entre os espectadores de Espólio, estão os mineirosJulio Rodrigues e Cláudio Pascoal, também pela primeira vez nolocal. "Estamos de passagem pela cidade e hospedados aquiperto. Ontem assistimos a Mãe Coragem e hoje optamos por essapeça porque um amigo indicou. Ao chegarmos, achamos as árvoresmeio sinistras, escuras, mas a calçada é iluminada."Na noite de sábado, a atriz Dulce Muniz, uma das sóciasdo Studio 184, toma café no bar do Espaço dos Satyros.Explica-se: os dois teatros realizam parcerias. Dulce faz umaparticipação especial na peça De Profundis, enquanto odiretor do Satyros, Rodolfo García Vazquez, assina a direção dapeça O Terrivel Capitão do Mato, no Studio 184. "Espero queem breve as pessoas se refiram à Praça Roosevelt como a praçados teatros", diz o ator Regis Santos, do Teatro X.

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