Teatro usa a vida na metrópole como tema e cenário

Há mais de 50 anos, o Teatro Oficina proclama seu brado vitalista: a matéria do teatro é a carne sólida dos homens, seu tempo é o momento presente e o espaço para o acontecimento teatral é o ar entre os corpos que a arte procura estreitar em uma união simbólica da única totalidade possível. Resumindo desse modo parece tratar-se de um austero credo laico professado por artistas dispostos a viver a pão e água, satisfeitos com o pouco que têm e submissos a regras monacais.

AE, Agência Estado

28 de dezembro de 2010 | 10h33

Nada disso. O desejo ardente do grupo, expresso tanto na arte que produz quanto nas teorizações que circunscrevem os espetáculos, é a satisfação da carne, a felicidade no instante e a comunhão com muita gente. Enfim, um projeto expansionista há muito tempo anunciado por batismos periódicos: primeiro Oficina, depois Uzyna e finalmente Uzona. E graças a essa tenacidade o grupo termina a primeira década do século 21 ocupando, ainda que por tempo determinado, o território daquele vizinho cuja especialidade é exatamente comunicar-se com muita gente.

Comunicação de massa é outra coisa, mas, na escala peculiar do teatro, em que os atores são meio e fim, as frestas abertas às vezes a golpes de picareta e outras vezes com lábia insistente são aberturas para que a cidade entre em cena e, inversamente, para que o teatro escape da sua circunscrição geográfica, estética e histórica. A reclusão, a arquitetura fechada e a ótica egocentrista correspondem, pelo menos do ponto de vista desse persistente coletivo teatral, a outros objetivos. É um teatro que ambiciona o lado de fora, quer mais gente assistindo, mas quer ainda incorporar ao seu discurso interno o fato de que é vislumbrado por carros velozes, transeuntes e observadores ocasionais das janelas. Ser atravessado é um modo de absorver a pulsação vital da cidade.

Certamente não é nova ou singular essa relação literal com a polis e a sua derivação, a política. Apenas, de modo mais enfático, o Teatro Oficina tem a vocação da clareza e faz o possível para não separar a palavra da coisa. Além dele, outros coletivos teatrais produzem espetáculos cujo intuito é transbordar as circunscrições de espaço, tempo e fronteiras invisíveis de segregação social e econômica. Entre eles, o mais nítido, e talvez o mais radical nesse tipo de estratégia de representação, é o Teatro da Vertigem. Depois de ter representado em igreja, hospital, presídio e sobre as águas do Tietê, os atores do grupo dependuraram-se este ano do lado de fora de um arranha-céu da Avenida Paulista, imitando de modo mais que perfeito a precariedade do trabalhador e dos cidadãos que, de um modo geral, se comprimem ao redor do núcleo rígido do capitalismo financeiro.

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