Teatro revê caso de Rimbaud e Verlaine

A atração pelo discurso moderno, com sua carga de rupturas e transgressões nos costumes e nas artes, motivou o dramaturgo Alcides Nogueira a criar uma trilogia teatral iniciada com Ópera Joyce - sobre o escritor James Joyce - e seguida por Gertrude Stein. Agora, o autor encerra a trilogia levando ao palco a vida e a obra de dois dos maiores poetas franceses do século 19, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.Pólvora e Poesia, como o título indica, mescla a obra poética e a intensa e conturbada relação entre os dois poetas. Sob direção de Marcio Aurélio, o espetáculo estréia amanhã para convidados, e sexta-feira para o público, no Centro Cultural Banco do Brasil, com cenário e os figurinos de Gabriel Villela e, no elenco, João Vitti como Rimbaud e Leopodo Pacheco no papel de Verlaine."Eu deveria começar por eles minha trilogia, uma vez que sua produção poética influenciou grande parte da literatura que veio depois", argumenta Nogueira. "Mas era preciso ter mais maturidade como artista, porque essa é a peça mais difícil, tanto pela extrema qualidade da poesia, quanto pela forma como vida e obra se misturam na criação artística de ambos."Nogueira define como "apropriação lícita" a forma como transforma poesia em diálogos para contar o encontro dos personagens e a "paixão dilacerada" que vivenciam. Rimbaud era um garoto de 16 anos, pobre e provinciano, quando entra em contato com a poesia de Verlaine. Inicia então uma correspondência com o poeta, que o convida para morar com ele em Paris. Ali é acolhido por Verlaine e sua mulher Mathilde, grávida do primeiro filho do casal. A paixão comum pela poesia acaba transformando-se em atração recíproca.Tem início então uma relação, que choca a sociedade parisiense, desagrega o casamento de Verlaine e se reflete na produção poética de ambos. É esse encontro, desde o primeiro dia até a separação trágica, dois anos mais tarde, que Nogueira explora num texto ágil e fragmentado, construído sobre a obra de ambos.Uma sugestão do autor - que a trilha fosse composta por música de Chopin - acabou inspirando a concepção de Marcio Aurélio, que colocou o músico Fernando Esteves executando ao vivo a trilha no centro de um cenário de planos inclinados e assimetricamente recortados. Música e poesia dialogam, assim, por meio da figura do pianista que toca ora com a mão direita (Verlaine), ora com a esquerda (Rimbaud), ora com ambas. Ele chega até a executar uma composição de traz para a frente, atuando o tempo todo como se absorvesse ou interferisse nas emoções vividas por Rimbaud e Verlaine."Eu jurei para mim mesmo que abandonaria o trabalho caso não encontrasse uma tradução cênica equivalente ao texto, uma chave poética para encenação", afirma o diretor. "A música em cena não é mero acompanhamento. O pianista é outro personagem muito importante para a nossa relação", afirma João Vitti. Antes mesmo de ser convidado para viver o papel - escrito originalmente para o ator Cláudio Fontana, produtor do espetáculo -, Vitti era apaixonado pela obra de Rimbaud. "Era um poeta genial, mas um desagregador, alguém que não tinha limites de comportamento, que propunha a si mesmo e a Verlaine um total desregramento", diz o ator."Mas quem sofre mesmo nisso tudo é Verlaine. Ele é a própria contradição. Um homem casado, com a mulher grávida, que se vê envolvido numa paixão que nasce da afinidade poética. Verlaine tem alma parnasiana. Ele não mergulha no desregramento como Rimbaud, ele vai e volta o tempo todo e acaba com a alma dilacerada nesse processo", conclui Pacheco.Pólvora e Poesia. De Alcides Nogueira. Direção Marcio Aurelio. Quinta a domingo, às 18 horas. R$ 15,00. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, em São Paulo, tel. (11) 3113-3600. Até 2/9. Estréia sexta-feira, às 18 horas.

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