Teatro resgata Helena Ignez, a musa do cinema novo

Ela tomou de assalto as fantasias de sua geração. Loira escultural, traços delicados, a baiana Helena Ignez foi uma das mulheres mais desejadas do Brasil nos anos 60. Casada com Gláuber Rocha entre 1959 e 1962, atuou no primeiro filme do cineasta, O Pátio, depois de obter recursos para a produção. Findo o casamento, mudou de Salvador para o Rio e atuou em Assalto ao Trem Pagador (62), de Roberto Farias. Apaixonou os intelectuais em um marco do cinema novo, o lírico O Padre e a Moça (66), de Joaquim Pedro de Andrade. Depois de aventuras em palcos, sets e centros religiosos de vários países, Helena Ignez está em São Paulo, atuando em Savannah Bay, de Marguerite Duras, no Centro Cultural São Paulo. Ela faz uma atriz veterana, com problemas de memória. Atua com a filha, Djin Sganzerla, que em breve voltará a Londres para estudar. Helena Ignez trocou o Rio, onde mora, por uma temporada paulistana. Depois de Savannah Bay, fará Antiga, de Dionísio Netto. E quer estrear aqui, no segundo semestre Madame Blavatsky, de Plínio Marcos. Em 1966, quando O Padre e a Moça chegou às telas, a sensual atriz já estava em outra praia. Trabalhava com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. E tornou-se ícone erótico. Em O Bandido da Luz Vermelha, de 1968, interpretou a pistoleira que causava a desgraça do personagem-título. A Mulher de Todos, de 1969, tornou inesquecível sua imagem decidida, com um charuto na boca, decretando: "O negócio é ser boçal". Helena Ignez nasceu em Salvador, em 1941. Batizada Helena Inês Pinto de Melo e Silva, foi criada "para ser mulher de ministro". Freqüentava o Iate Clube e outros redutos aristocráticos. "A família não tinha tostão, mas se orgulhava da tradição. Entre meus amiguinhos estava Ângelo Calmon de Sá. Ainda bem que fugi disso." Os pais de Ignez não impediram a bela filha de seguir a vocação. Embora tenha decidido ser atriz só aos 17 anos, quando entrou para a Escola de Teatro, desde criança "gostava de fazer imitações, criar histórias". Prestou exame para direito e teatro. Foi aprovada nos dois cursos. O palco levou a melhor. E a paixão por Gláuber, que ela conheceu na escola. "Foi um encontro explosivo", diz. A união pôs seu mundo de pernas para o ar. Deu-lhe a primeira filha, Paloma, e experiências com o preconceito. "No meu círculo, Gláuber era considerado mulato, alguém de nível inferior. Amigos me evitavam, deixaram de me cumprimentar. Eu virei sinônimo de escândalo." O fim do casamento com Gláuber foi amargo. "Ele requereu a guarda de Paloma, alegando que eu, atriz, não podia cuidar de minha filha." Só quando a menina estava com 10 anos voltou a morar com a mãe. E quando Ignez associou-se ao cinema marginal de Bressane e Sganzerla, Gláuber escreveu artigos furiosos. "Dizia que era o pior cinema do mundo, chamava não de underground mas de udigrudi, para ofender, para machucar. Foi um período duro." Paixão e pressão E também um tempo de muito teatro em sua carreira. Atuou até em Descalços no Parque, de Neil Simon, no papel que seria de Jane Fonda em Hollywood. Voltou ao cinema em Cara a Cara (67), de Júlio Bressane, com quem se casou. Em São Paulo, enquanto filmava O Bandido da Luz Vermelha, apaixonou-se pelo diretor, Rogério Sganzerla, sete anos mais novo. Separou-se de Bressane e uniu-se a ele. Tiveram duas filhas, Sinai e Djin. Com o Bressane e Sganzerla, ela formou a produtora Bel Air. Apesar da oposição de Gláuber e de muitos críticos, produziram sete filmes em 1970: Família do Barulho, Sem essa Aranha, Barão Olavo, o Horrível, Copacabana, Mon Amour, Cuidado, Madame, Carnaval na Lama e Os Monstros do Babalaô. "Vivia 24 horas por dia para o cinema. Havia enorme ebulição ao nosso redor. Hélio Oiticica estava sempre conosco. Mas a pressão da ditadura era muito grande, chegamos a receber até ameaças de morte. E eu queria parar um pouco para amar, para ter filhos. Foi essa conjunção de coisas que me levou a deixar o cinema, o teatro." Ela e o marido exilaram-se em Londres, onde estavam Caetano Veloso, Gilberto Gil etc. "Era maravilhoso, mas triste." Depois, o casal viajou pela África. E voltou para a Bahia. Sganzerla pesquisava a obra de Orson Welles para produzir Nem Tudo é Verdade. E Ignez mergulhou em uma busca espiritual que a levou ao budismo, ao hinduísmo. "No começo, foram as drogas que me puseram na busca espiritual. E tive sorte. Encontrei grandes mestres que me mostraram a luz dentro de nós. Temos de entender a nós mesmos e aos outros para ser felizes. Eu não entendo, mas luto para isso." Helena Ignez morou em comunidades religiosas nos EUA e na Índia. Ali veio o impulso para a volta, quando um místico leu sua mão e previu que ela retornaria aos palcos e às telas. Desde o princípio da década de 90 passou a participar de espetáculos teatrais no Rio. "Voltei a fazer dança, a estudar com a energia de uma adolescente. Não posso prescindir de ar, liberdade, ação, do contato com a divindade. Faço tai chi todos os dias. E pratico também espada, bastão, sabre e leque. É o que me preenche." Agora, ela quer reunir tudo, o passado e o presente. "Estou em São Paulo, no centro da cidade, onde há uma circulação imensa de energia cultural e urbana. Sempre vou ter um pé no Rio, também. E trago em mim o mar da Bahia, que nunca me abandona. Passei por muitas fases em minha vida. Estou entrando numa nova fase."

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