Teatro que agrada aos olhos e à mente

Livro conta como é colorido, sensual e popular o trabalho do Théâtre du Soleil

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Josette Féral acompanha o trabalho do Théâtre du Soleil desde 1988, quando iniciou uma série de questionamentos sobre as leis fundamentais do teatro de Ariane Mnouchkine. Foram três reuniões ao longo dos anos, que forneceram material suficiente para a organização de Encontros com Ariane Mnouchkine (Editora Senac São Paulo/Edições Sesc São Paulo, tradução de Marcelo Gomes, 188 páginas, R$ 35), que será lançado quarta-feira na Bienal do Livro. A obra traz ainda um posfácio sobre a vinda do Théâtre du Soleil ao Brasil, em 2007. Sobre as conversas, Josette respondeu por e-mail às seguintes perguntas.

O trabalho do Théâtre du Soleil se aproxima mais de Brecht ou Shakespeare? Ou de nenhum?

Ariane Mnouchkine, como muitos diretores, é fascinada por Shakespeare, não apenas porque ele é um grande dramaturgo, mas por tudo o que esses grandes textos nos ensinam sobre o presente. O que sempre interessou a Ariane é falar do presente, fazer-nos entender melhor nosso mundo. É por essa razão que ela dirigiu As Átrides (Ifigênia, Agamenon, As Coéforas e A Cidade Perjura). Embora muito distantes de nós no tempo, elas estão muito próximas em razão do que estes textos nos dizem sobre a nossa condição e natureza humana, as lutas pelo poder, isto é, sobre o domínio que as paixões exercem sobre os homens. Quanto a Brecht, ele é, ou deveria dizer, foi uma das principais referências, principalmente quando a companhia estava iniciando sua carreira. Ariane começou a encená-lo na década de 60, em um momento em que Brecht era "a" referência, principalmente para diretores que, como ela, estavam muito empenhados politicamente. Não tenho certeza se ela mencionou Brecht depois disso em seu trabalho, embora muitos dos princípios desse dramaturgo tenham sido de algum modo integrados.

O que individualiza o compromisso político do Théâtre du Soleil?

O Théâtre du Soleil como um todo, e Ariane em particular, são extremamente comprometidos do ponto de vista político. Há muitos anos, Ariane criou uma estrutura para ajudar os artistas perseguidos pelos diferentes regimes políticos; ela chegou a apelar para diferentes governos em várias circunstâncias, a última foi seu protesto quando a chama olímpica chegou a Paris pouco antes da abertura da Olimpíada de Pequim. Ela se colocou num trecho do trajeto da chama e fez uma violenta manifestação juntamente com toda a companhia contra os desmandos do governo chinês e a falta de liberdade na China. Anteriormente, ela ajudou pessoas em situação irregular na França e hospedou várias delas na Cartoucherie, a sede do Théâtre du Soleil, posicionou-se em favor do Tibete e até mesmo fez uma peça sobre esse tema (Et Soudain des Nuits d"Hiver). Ela é um dos pouquíssimos diretores que conheço tão politicamente empenhados. Seu teatro também é político. Os temas que ela escolhe, o modo como dirige a companhia, seu interculturalismo, suas posições públicas...

Ariane diz que pede aos autores que não intelectualizem o trabalho do grupo, mas o resultado em geral mostra um grau elevado de elaboração.

A representação no Théâtre du Soleil é extremamente elaborada, mas elaborada não significa necessariamente "intelectual" ou "intelectualizada". Como você menciona, sempre começa por um trabalho coletivo. Certamente não intelectual, se o que você entende por intelectual implica que um ator tem uma ideia preconcebida do seu papel ou do que ele ou ela devem fazer. No Théâtre du Soleil, os atores começam construindo tudo do zero, inclusive o próprio personagem. Trabalham com o texto na mão, e não precisam decorá-lo de antemão. Lentamente, o integram ao próprio corpo, nas situações, nas ações. Eles exploram coletivamente. Um dos melhores documentos que já vi sobre esse tema é o filme de Eric Darmon e Catherine Vilpoux, Une Nuit au Soleil, que mostra o trabalho de ensaio sobre o Tartufo. Pode-se ver como Ariane dirige os atores e como os atores procuram seus personagens um pouco de cada vez. Para começar, não existe um elenco definido, vários atores podem interpretar (e explorar) diferentes personagens, um ator pode funcionar de exemplo para o outro (ela o chama "locomotiva"). O trabalho às vezes é extremamente demorado, e enquanto não estiver pronto, Ariane não aceitará apresentá-lo ao público. Muito frequentemente, ela adiou estreias por achar que a peça não estava pronta.

O cuidado de Ariane com a simplicidade não deve ser confundido com ascetismo ou com uma recusa do mundo. Podemos associá-la, nesse caso, a Peter Brook?

O trabalho e a visão do teatro de Ariane estão profundamente arraigados no mundo. Não são absolutamente ascéticos em termos de performance. São ricos, calorosos, com profundas raízes no mundo, de muitas maneiras sensuais... Entretanto, talvez sejam ascéticos para os atores, porque o trabalho é muito exigente e porque são obrigados a levar uma vida que exige demais deles, uma vida em que tudo gira em torno do trabalho que está sendo feito. Contudo, muitas entrevistas que fiz com os atores mostram que, apesar dessas exigências, o tempo que a maior parte deles passa no Théâtre du Soleil é estimulante e extremamente rico. O que o torna difícil, em certos momentos, são as condições econômicas, difíceis de aceitar a longo prazo, e o compromisso com todos os aspectos do teatro. Os atores compartilham muitas tarefas. Não sei se os atores de Brook trabalham com uma estrutura como essa, principalmente agora que em sua maioria se desligaram e passaram a trabalhar por conta própria (como Yoshi Oida, por exemplo). Entretanto, o que aproxima Ariane de Brook é um conceito extremamente elevado que eles têm do que o teatro deveria ser, e uma autêntica fé numa ética do teatro.

As máscaras da Commedia dell"Arte, o teatro de bonecos - qual a eficácia dos acessórios na representação? Sua presença não "quebra" a escolha de um teatro mais árido?

Para os que viram Ariane trabalhando, é óbvio que não existem verdadeiros "acessórios" no seu mundo, no sentido de algo acrescentado à encenação, como uma espécie de "ilustração" do que acontece no palco. Entretanto, é óbvio nas últimas apresentações do Théâtre du Soleil, Caravansérail, As Efêmeras, e agora Les Naufragés du Fol Espoir (Os Náufragos da Insana Esperança), que o número de acessórios no palco aumentou enormemente em comparação às suas primeiras peças, como Agamenon ou Ricardo II. O teatro de Ariane não é um "teatro árido". É muito rico, colorido, sensual, por isso é popular. Ela explica muito claramente, assim como os atores, que os costumes, sua textura, seu peso, seu colorido são importantes e que os espectadores precisam compreender quase imediatamente pelo olhar o que acontece no palco. É um teatro que agrada aos olhos e à mente.

Por ser um espetáculo coletivo, qual é o papel de Ariane como diretora? Que limites lhe deveriam ser impostos?

Embora se trate de uma obra coletiva, Ariane é o centro de todas as produções. Ela tem um olho excelente para as coisas, vê quando funcionam e quando não, segue o ator passo por passo, cuida dos detalhes; o simples fato de ela estar ali faz toda a diferença. Ela trabalha com o que os atores levam para o palco. Certa vez, ela me disse que "nenhum diretor pode nos fazer acreditar que nós (os encenadores) podemos fazer qualquer coisa com nada", no sentido de que o diretor depende totalmente das coisas que um ator sugere (movimentos, ações, situações...) A força de Ariane está nesse talento que ela tem de sentir os atores, de orientá-los sem explicações, trabalhando de maneira simples, clara e aguda as situações, as ações.

QUEM É

ARIANE MNOUCHKINE

DIRETORA DE TEATRO E CINEMA

Francesa, a fundadora do Théâtre du Soleil em Paris (1964) nasceu em 1939. Dedicada ao teatro de vanguarda de processo colaborativo e engajamento político, recebeu em 2007 o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra no Festival de Teatro da 39ª edição da Bienal de Veneza.

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