Teatro Nô ganha o palco em SP

Os 95 anos da imigração japonesa noBrasil serão comemorados em grande estilo. A escola Kaga-Hoshodo clássico Teatro Nô faz única apresentação amanhã no SescConsolação. O grupo apresentará duas peças de seu repertório:Takasago e Hagoromo, uma oportunidade do públicobrasileiro conhecer um pouco mais sobre essa tradicional artedramática."Infelizmente, o grupo só poderá fazer uma apresentação, por causa dos compromissos já assumidos no Japão. Pretendemvoltar em breve, mas não poderão fazer mais que trêsespetáculos", comenta Elza Hatsumi Tsuzuki, pesquisadora daFundação Japão. O programa apresentado na cidade é uma pequenamostra do que é o Teatro Nô. "Esse tipo de teatro pode serapresentado de diversas maneiras, no caso da peça Takasago,será mostrada a versão compacta. Um trabalho muito bonito, quetem como destaque o canto e os instrumentos. Essa é a primeiravez que será realizada essa apresentação de música e canto noPaís."Takasago conta a história de um monge que aoconversar com um casal de anciãos, discute a relação entre homeme mulher. Ainda, por meio da simbologia do pinheiro, abordatemas como a paz e a longevidade. Para completar, serãoapresentadas quatro danças: Kantan, Yashima, Idutsu eFunabenkei. "Esse é um bailado importante, normalmente por ondeos atores começam e terminam suas carreiras."Para encerrar a noite, uma demonstração de kistuke, oprocesso de vestir o figurino da peça Hagoromo (Manto dePlumas). Essa é uma das peças mais conhecidas e encenadas doTeatro Nô. Fala de pescadores que caminham na baía de Miho, atése depararem com um manto do céu. Um anjo aparece para recuperaro manto, que só o recebe das mãos do pescador mediante ocompromisso de dançar. Os temas abordados são universais, como oamor, a compreensão e compaixão.Tradição - O Teatro Nô é uma arte milenar. A palavra"Nô" significava realizações. Posteriormente seu sentido foialterado para "representações dramáticas". Ele foi aprimoradono séculos 14 e 15, primeiro por Kawannami, um grande ator ediretor, e depois por seu filho, Zeami, um excelente dramaturgo,ator e diretor, que deu ao teatro refinamento e graça. Antesdeles, o Teatro Nô era considerado uma forma de diversão popularou ainda uma variedade de dança popular.Zeami foi criado na corte, onde foi educado e recebeu aproteção do Shogun, o que garantiu meios de subsistência.Assegurado pelo governo, Zeami pôde se dedicar a sua arte esofisticá-la. Publicou teorias em livros permitidos apenas a umgrupo seleto de poucos privilegiados qualificados para aleitura. Esses documentos permaneceram ocultos por séculos.A tradição do Teatro Nô é transmitida de pai para filhoe apenas algumas famílias dominam a técnica. "O Nô foiincorporado às cerimônias oficiais, o que possibilitou ser umadas principais manifestações artísticas do Japão por séculos",diz Elza. "Muitos nobres, além de serem espectadores,interessaram-se por aprender essa arte. Uma maneira de preservara tradição foi manter seu ensinamento restrito, modo eficaz dedeixar o Teatro Nô praticamente inalterado e ele continua a serexibido como foi criado."As peças encenadas pela escola Kaga-Hosho mantêm asprincipais características do teatro, como a simplicidadeextrema, com a ausência de acessórios. Não há jogo de luz oucenários. Uma vara pode representar um barco, por exemplo. Emcontraste, as roupas do ator principal são suntuosas,confeccionadas com cores vivas e muitos bordados.Os movimentos são lentos, o ator desliza pelo palco, oque dá um ar de irrealismo, acentuado pela presença da máscara.Os símbolos expressam as ações e sentimentos. No palco,geralmente, quatro atores narram a peça. As ações não acontecemnas cenas, são transmitidas pelo canto, por declamação, mímica edança, que possui forte carga dramática.Para completar, um coro intervém na ação, ora falandocom os atores, ora dialogando com eles, descrevendo paisagens ousentimentos. Uma pequena orquestra auxilia no acompanhamento dosatores.Teatro Nô da Escola Kaga-Hosho. Única apresentação,amanhã,às 20 horas. R$ 20,00. Sesc Consolação. Rua DoutorVila Nova, 245, São Paulo,tel. 3234-3000.

Agencia Estado,

22 de janeiro de 2003 | 16h36

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